LIVRARIA CAETÉS

Em 1984, era aberta a Livraria Caetés, a partir da experiência vivenciada pelos irmãos Amaro Ricardo Fernandes Pereira (centro) e João Maria Fernandes Pereira (à direita) na Livro 7, pertencente a seu irmão mais velho Tarcísio Pereira. Sua sede ficava localizada na Rua Cincinato Pinto, n. 143.

O acervo da livraria continha obras das áreas de Ciências Humanas, Letras e Artes que foram transferidas a João após seu desligamento como sócio minoritário da Livro 7. Na casa alugada onde foi instalada, as obras eram acomodadas no térreo e, no primeiro andar, moraram por alguns anos João e Ricardo com suas respectivas famílias. 

As dependências internas da loja (foto) abrigavam os mobiliários das seções de livros, um espaço de café e, nos corredores, eram expostas as estantes com LPs de vinil. A seleção dos discos valorizava a música independente, apostando em artistas fora do eixo, como Quinteto violado, Xangai e Vital Farias. Aos sábados, o espaço também recebia escritores, artistas e intelectuais em calorosos encontros. 

Ao todo, a Caetés inaugurou quatro filiais e um ponto de vendas em Maceió. A primeira delas ficava localizada na Rua do Imperador. Era gerenciada por Ricardo até 1986, ano em que ele deixou a sociedade da Caetés e transformou o acervo dessa loja na livraria Estação do livro. Depois foram instaladas as filiais nos shoppings Farol e Cidade, no bairro do Farol, bem como um ponto de vendas na Universidade Federal de Alagoas, embaixo da escadaria do curso de Ciências Sociais. A última filial foi inaugurada na Avenida Mário de Gusmão, na Ponta Verde. 

Para diferenciar-se das livrarias-papelarias existentes, como a Casa do Colegial, a livraria mantinha um canal direto com as preferências do público universitário. Sua equipe de vendas (foto) destacava-se pela familiaridade com os conteúdos dos livros e pela disposição em orientar as escolhas dos clientes. Entre seus funcionários, Fábio Santiago (à esquerda) e Nilton Resende (à direita) trilharam um caminho longo no meio literário com a atuação, respectivamente, na gerência de livrarias e como escritor e editor de livros.  

A marca diferencial da Caetés também vinha de sua relação próxima com a realidade de produção alagoana. Havia uma estante exclusiva com obras locais e, de vez em quando, sempre tinha um autor ou autora que vinha reclamar de não ter seu livro em destaque na prateleira. Para movimentar o espaço, eram organizados vários eventos, entre os quais o lançamento dos livros das escritoras Heliônia Ceres, Arriete Vilela e Enaura Quixabeira.

O escritor Marcos de Farias Costa (esquerda da foto) além de lançar sua revista Dialética e alguns dos seus livros, costumava ser um assíduo frequentador dos encontros musicais, na companhia do compositor César Oliveira Rodrigues de Melo, mais conhecido pelo nome artístico de César Rodrigues (à direita).

Estiveram também presentes à livraria, nas suas estadas em Maceió, o escritor e dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, a poeta Cléa Marsiglia e a funcionária pública Heloísa Ramos, que fez questão de conhecer o espaço que levava o nome de uma das obras de seu marido, o escritor Graciliano Ramos. 

Heloísa chegou a ser convidada para realizar um bate-papo sobre a vida e obra do velho Graça, e sua presença ajudou a projetar o nome da livraria na mídia. Depois de sua visita, saíram várias matérias no Jornal de Alagoas e João Pereira foi até convidado a fazer resenhas semanais de livros no programa de rádio Brilho da cidade, apresentado pelo jornalista Walmar Buarque. 

A partir de uma rede de relacionamentos com distribuidores de Recife e outros estados do Brasil, a Caetés foi a única livraria de Alagoas a ter seu proprietário convidado com despesas pagas para participar de várias edições da Bienal do Livro de São Paulo. Durante essas viagens, realizadas na companhia de sua esposa, Ana Cristina Silva Pereira (foto), João fazia os contatos para aquisição e consignação das novidades editoriais da época que garantiam a constante atualização do seu acervo.

A livraria Caetés recebeu várias premiações. Foi contemplada, em 2005, com o Prêmio Top of mind Brazil, do Instituto Brasileiro de Pesquisa de Opinião Pública (Inbrap), na categoria de comércio varejista de livros, jornais, revistas e papelaria. Sempre foi bem avaliada nas pesquisas quanto ao reconhecimento da marca, atendimento, qualidade e estrutura.

Durante sua trajetória, a livraria conseguiu resistir às crises do meio editorial, à decadência da região central da cidade e à falta de modernização de seus serviços. Para sobreviver nos seus últimos anos de funcionamento, teve de comercializar livros técnicos, principalmente de direito e informática, bem como de autoajuda. 

Encerrada em 2006, a Caetés nem teve tempo de migrar seu sistema operacional de vendas do estágio analógico para o digital, mas entrou para a história como a livraria mais influente e afetivamente lembrada da fase contemporânea da literatura em Alagoas.

FONTE: Depoimento dado por João Maria Fernandes Pereira a Simone Cavalcante, em junho de 2026/ Fotos do acervo pessoal de João Maria/ Recorte do Jornal O Dia, caderno Campus, de 2 a 8 de novembro de 2014, cedido por Marcos de Farias Costa.