EDITORA E SELO EDITORIAL

UM PASSEIO PELA EDIÇÃO DE LIVROS EM ALAGOAS

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Os livros encontram seu berçário nos espaços de criação das editoras e selos editoriais. Os processos de edição envolvem o trabalho coletivo de editores, designers, diagramadores, ilustradores, revisores e tradutores. É quase um time trabalhando na transformação do texto original em uma obra materializada para ocupar os espaços de circulação de leitura. Alagoas possui uma rica trajetória editorial, iniciada com os ancestrais da produção de livros, as oficinas tipográficas e litográficas, até chegar aos novos processos da atualidade.

O início dessa história começa por volta de 1831, ano de criação em Maceió da primeira tipografia com sistema de impressão em tipos móveis, por iniciativa de Manoel Lobo de Miranda Henriques, presidente da província de Alagoas. Nessa prensa foi impresso o primeiro jornal local, o Íris Alagoense.

Começava daí a ser formada uma rede de tipografias e litografias, entre elas a Associação Tipográfica Alagoana de Socorros Mútuos, Tipografia Comercial, Tipografia Alagoana, Tipografia da Gazeta de Notícias, Litografia P. Trigueiros & C., Tipografia Americana, Tipografia Novo Mundo, Tipografia do Partido Liberal.

Essas empresas possuíam uma estrutura física e tecnológica rudimentar e, para sobreviver, imprimiam vários tipos de materiais: recibos, relatórios, faturas, selos, livros e rótulos de produtos. Como acontecia em várias partes do Brasil, algumas delas acumulavam também as tarefas de editora e livraria, voltando-se para a comercialização no varejo de obras literárias, técnicas e didáticas.

Os livros impressos eram produzidos por encomenda ou por iniciativa da própria tipografia, e recebiam um tratamento diferencial em relação aos demais materiais gráficos. O editor-tipógrafo tinha acesso aos originais escritos pelos autores e autoras. A equipe de produção montava o texto por meio dos tipos móveis e preparava os clichês das imagens. Em seguida, as primeiras provas do livro eram impressas em papel e submetidas a um trabalho exaustivo de revisão.

O cuidado na impressão do livro seguia um nível maior de exigência. Diferente dos impressos efêmeros, a obra, depois de finalizada, precisava estar bem apresentável para ser divulgada nos anúncios dos jornais, gerar interesse e cair no gosto do leitorado.

As práticas editoriais mais próximas do que conhecemos hoje vieram do trabalho realizado pela Casa Trigueiros (1885), como ficou popularizada a Litografia P. Trigueiros & C, Casa Ramalho (1893) e Livraria Fonseca (1904). A Casa Trigueiros publicou as primeiras edições de O Mundo do Menino Impossível (1925), Poemas (1927) e Essa negra Fulô/Banguê (1928), escritas pelo poeta Jorge de Lima. O livro de crônicas Mil e duas noites, de Jayme de Altavila (1921) saiu das prensas da Livraria Fonseca que, além de livros, realizava impressões de cartões postais e materiais fotográficos.

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A Casa Ramalho possuía em sua estrutura física uma oficina tipográfica e um salão de leitura onde eram realizados encontros e lançamentos literários. Seu proprietário, Manoel Joaquim Ramalho, além de professor, livreiro e tipógrafo, era um editor com perfil inovador e bem engajado no meio literário. Foi dele a ideia de lançar a Coleção de autores alagoanos. Entre os 11 títulos da coleção, tiveram destaque as obras Açúcar & algodão, de Humberto Bastos, Crônicas alagoanas, de Alfredo Brandão, e Folclore de Alagoas, de Théo Brandão. A Casa Ramalho tornou-se a principal referência em edição e impressão de livros na primeira metade do século XX.

Desse tempo em diante, surgem outros empreendimentos editoriais, entre os quais a Imprensa Oficial de Alagoas (1912) que editava, de maneira esparsa, livros e materiais oficiais, e a Livraria Machado (1920), dedicada à publicação de obras, peças musicais e cartões postais.

A realidade editorial em Alagoas foi estabelecida, além disso, pelo empenho de mulheres. Maria Lúcia Duarte, além de escritora, era uma hábil editora, e conseguiu reunir nomes representativos da literatura brasileira no Almanach Literário Alagoano das Senhoras, o primeiro desse gênero no país. A primeira edição do almanaque foi impressa em 1888, pela Tipografia Antonio Luiz & C., e a segunda, no ano seguinte, pela Tipografia Novo Mundo.

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O Almanach Literário Alagoano das Senhoras esteve na vanguarda do seu tempo na valorização da literatura de autoria feminina ao expor os textos de escritoras de várias regiões do país, principalmente do Nordeste. A publicação ultrapassou as fronteiras geográficas, aproximando do cenário local as produções da gaúcha Cândida Fortes, da baiana Ana Autran, da pernambucana Francisca Izidora, das cearenses Alba Valdez e Francisca Clotilde, da paraibana Anna Ribeiro e das sergipanas Maria Minervina de Menezes e Maria Cândida Ribeiro.

Com essas práticas editoriais, os textos escritos deixavam o anonimato e circulavam nos diferentes espaços de sociabilidade. Os livros com selo alagoano, inseridos no contexto da vida pública, pautavam os debates nas páginas dos jornais e nas rodas de conversa dos espaços artísticos e culturais. O ato de publicar tornava-se um gesto revolucionário numa sociedade onde a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever. Mas só uma parcela ínfima da população tinha acesso aos meios de publicação e domínio das habilidades de leitura.

Após a década de 1960, o meio editorial alagoano sofre uma ruptura nos processos de impressão dos livros com as transformações técnicas e tecnológicas de seus parques gráficos. Nessa época, várias empresas gráficas acumulavam os serviços de edição de livros: Gráfica São Pedro, Gráfica Diário de Alagoas, Gráfica de Alagoas, Grafitex, Gráfica e Editora Gazeta de Alagoas, entre outras.

Alguns desses empreendimentos operavam com máquinas impressoras offset. Essa tecnologia dava mais agilidade à produção dos livros, demandava menos insumos e atingia melhores níveis de qualidade. À medida que os parques gráficos aperfeiçoavam seus processos de tratamento editorial e impressão, as antigas tipografias perdiam seu lugar de importância.

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Nos anos 1970, a Imprensa Oficial de Alagoas passa a funcionar como autarquia, sendo chamada primeiro de Serviços Gráficos de Alagoas S/A (Sergal) e, depois, de Sergasa, tornando-se uma referência regional no ramo. Do prelo da gráfica saíram vários livros e revistas de literatura, entre elas o livro de poesia, Jarros de porcelana (1965), da poeta Cléa Marsiglia, a reedição do romance A filha do barão (1976), de Pedro Nolasco Maciel, e o primeiro número da Revista Dialética (1992), editada pelo escritor Marcos de Farias Costa.

Com a melhoria de seus processos de impressão e diante do aumento de novos escritores e escritoras, as gráficas-editoras de Alagoas não conseguiam abarcar sozinhas as demandas crescentes de preparação editorial do livro. Entre os anos 1980 e 1990, começa a haver uma separação entre as funções de editora e gráfica, a partir da fundação das primeiras editoras que assumem as tarefas específicas da projetação do livro e adotam linhas editoriais bem definidas.

Essas editoras conciliam o tratamento dos textos originais com a prestação de serviços de assessoria de comunicação dos escritores, a realização de feiras literárias e a organização de lançamentos individuais e coletivos em livrarias, auditórios de hotéis, restaurantes, praças e shopping centers. Os processos de edição buscam inserir os livros numa rede de circulação cada vez mais próxima do leitorado.

A Editora da Universidade Federal de Alagoas  ̶  Edufal (1983) é inaugurada nessa fase e segue até hoje uma linha acadêmica, com a publicação de livros avulsos e coleções. A editora chegou a publicar, nos primeiros anos, textos de poesia, prosa e teatro, inclusive de autores e autoras que atuavam fora do ambiente da universidade.

No final dos anos 1990, a realidade editorial se amplia, com o aparecimento da HD Livros Editora, empresa fundada em 1996 na cidade de Curitiba (PR) com representação em Alagoas, e das Edições Catavento (1999-2012), criada em Maceió. Ambas as editoras seguiam uma linha comercial, editando livros de literatura e conhecimentos gerais. A editora Catavento enveredou, além disso, na publicação de livros para infância e de histórias em quadrinhos (HQ). Elas trouxeram algumas inovações no design do livro e ajudaram a formar novas ramificações no cenário editorial.

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Com a chegada do novo milênio, a Imprensa Oficial de Alagoas recebe, em 2002, o nome de Imprensa Oficial Graciliano Ramos, em homenagem ao escritor alagoano. Anos depois, com a fundação de sua editora, os processos de preparação e impressão dos livros mudam de rumo, a partir do investimento de recursos públicos em editais e premiações literárias e projetos especiais.

Neste mesmo período, ocorre um aumento repentino de novos selos e editoras independentes no estado. Para Elaine Raposo, professora e pesquisadora em Literatura, parte dessas iniciativas contribui para a construção de um cenário editorial e literário plural, diversificado e fora do eixo da capital. Essa expansão teve a influência de vários fatores.

As mudanças tecnológicas da informática causaram uma reviravolta no meio gráfico-editorial. A presença do computador plugado à Internet contribuiu para tornar mais ágeis e, economicamente, acessíveis os processos de edição e produção gráfica do livro. E, além disso, proporcionou a implantação dos sistemas de impressão por demanda que facilitou a produção de livros em baixas tiragens vinculada, muitas vezes, a campanhas de venda antecipada de exemplares.

O segmento editorial se beneficiou também das mudanças nas áreas da educação e cultura. O crescimento da oferta de vagas em escolas e universidades, a instalação de novos espaços de leitura e bibliotecas e as ações públicas de enfrentamento dos altos índices de analfabetismo impulsionam a demanda por publicações pedagógicas, didáticas e literárias. O investimento de recursos públicos na área de literatura, a exemplo dos editais federais da Lei Paulo Gustavo (LPG) e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), tem incentivado a publicação e circulação de uma demanda reprimida de obras de poesia e prosa em vários municípios do estado.

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Hoje o cenário editorial em Alagoas vive um processo de interiorização indo na direção de cidades do agreste e sertão. Das editoras em atividade no interior, demarcam presença: Editora SWA (2012), na cidade de Santana do Ipanema; Paiol (2015), formada pelos selos Paiol Editora, Projeto Paiol e Paiol Cordel, em Teotônio Vilela; Eduneal (2012), Editora Performance (2020) e Editora Edfika (2022), em Arapiraca; e Edições Parresia (2020), em Delmiro Gouveia.

Em Maceió, instalam-se novas editoras acadêmicas como a Editora do Cesmac (2016) e os projetos editoriais do Ifal (2025). Um fato marcante é o aumento exponencial de editoras e selos editoriais com registro comercial ou independente como Viva Editora (2012), Sapatilhas de Arame (2014), Joelhos de Velho Gráfica e Editora (2015), Querida Prudência (2016), Mundo Leitura (2017), Griô Editora (2017), Trajes Lunares (2017), Editora CAB (2017), Sirva-se Edições Alternativas (2017), Loitxa Lab (2020), Labafera (2021), Melani Editora (2022), Editora Matriz (2025), Leia Alagoas (2025).

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A safra atual de editoras e selos editoriais conduz os processos de edição com mais zelo e cuidado de olho na qualidade das publicações impressas e digitais (ebooks). Algumas delas atuam em nichos específicos, com uma linha editorial voltada a livros para infância, arte e literatura, o que confirma a tendência de segmentação da realidade editorial contemporânea.

É bem marcante também o aparecimento de projetos de autopublicação, no qual a mesma pessoa que escreve cuida do tratamento editorial e da confecção do livro, este produzido, muitas vezes, por meio de financiamentos coletivos. A produção artesanal de Lua Negra Cartonera, hoje denominada Editora Lua Negra, entre eles, Saindo da piscina de éter (2017), de Ana Karina Luna, e da Ofélia Edições, inaugurada com a obra Verde vidro (2019), de Amanda Prado, exemplificam a quebra da hegemonia das editoras convencionais.

Se antes publicar livro em Alagoas era quase um luxo, uma aventura, hoje a realidade caminha a favor dos ventos da escrita. O sentimento de utopia, experimentação e romantismo da fase mais amadora da produção ainda não se perdeu e convive com boas práticas de profissionalismo. Editoras não faltam, livros publicados e de qualidade também não. A urgência atual parece ser a necessidade de ampliar e fortalecer os meios de circulação e de consumo dessa produção, mas isso é tema para uma outra conversa.