SEBO

Os livros físicos percorrem vários caminhos até chegar às mãos de leitores e leitoras. Depois de escritos, lançados e adquiridos nas livrarias, nas bancas de revista e nos sites do comércio eletrônico, podem ser lidos e guardados em casa, emprestados ou colocados de novo à venda. Num movimento circular, os sebos ou alfarrábios, como espaços de circulação de produtos usados de leitura, arte e música, contribuem para ampliar o tempo de vida útil dos livros e as possibilidades de compartilhamento de seus conteúdos.

Antes da existência desses espaços, as primeiras referências a alfarrábio citadas em crônicas e poesias de jornais de Alagoas do século XIX carregavam o significado de livro antigo, raro e com cheiro de mofo. Talvez por esse motivo a ideia de sebo como um lugar para venda de obras desgastadas e de difícil acesso persista até hoje no senso comum das pessoas. 

Uma das primeiras ações de estímulo à circulação de obras usadas em Alagoas ocorreu por iniciativa da Liga contra o empréstimo de livros, um movimento criado em 1932. Ao promover uma feira literária, na Praça Dom Pedro II, a conhecida Praça da Catedral, no Centro de Maceió, a Liga estimulou as pessoas a doarem obras de segunda mão para serem vendidas a preços populares. Em dois dias de programação, foram comercializados 1.500 títulos.

A proposta do movimento surgiu como uma brincadeira dos escritores Valdemar Cavalcanti (ver fotomontagem), Alberto Passos Guimarães, Carlos Paurílio, Manuel Diégues Júnior, Raul Lima e Luiz Ramalho. Eles criticavam amigos que pegavam emprestado, e não devolviam, obras guardadas em suas bibliotecas particulares. Preferiam vender a emprestar seus livros. Nesse período, era um privilégio possuir um acervo pessoal e colecionar títulos raros.

O primeiro negócio em formato de sebo, na capital, parece ter ocorrido nas dependências internas da Livraria Cândido (1930-1950), de propriedade de Antonio Cândido. A livraria comercializava livros novos e também negociava obras usadas, raras e esgotadas. Numa crônica publicada no Jornal de Alagoas, nos anos 1950, o jornalista Arnoldo Jambo descreveu o velho Cândido como um leitor apaixonado que fez de sua livraria a extensão de sua própria individualidade.   

Com o passar do tempo, um maior número de sebos passa a ocupar a região central de Maceió e de algumas cidades do interior de Alagoas até formar um comércio varejista de livros usados. Na capital, durante os anos 1970, a atividade foi impulsionada a partir da ideia original de seu Benedito Ferreira Lima, apelidado de Biu, um negociante de materiais recicláveis que transformou os livros usados numa inovação econômica. 

A iniciativa de seu Biu teve início ao redor da Praça Dom Pedro II, quando, numa parada para descanso, as pessoas começaram a perguntar se os livros transportados em sua carroça, adquiridos por meio de doação, estavam à venda. O faro de comerciante viu ali uma oportunidade de ampliar seus meios de sobrevivência. Ele passou a comercializar as obras, por peso, igual fazia com os materiais recolhidos nas suas andanças pela cidade.

Depois, os livros passaram a ser vendidos por unidade, expostos em caixotes na calçada do paredão detrás da Assembleia, onde fica hoje a Rua Levy Câmara Scala. Esse local, chamado antes de Rua das Verduras, foi recriado na ficção como uma das vias por onde caminhou Luís da Silva, personagem do romance Angústia (1936), de Graciliano Ramos. 

Dia após dia, seu Biu montava e desmontava sua banca, assim como faziam os feirantes de rua, e guardava todo o material na loja Motopeças, até o momento em que conseguiu abrir, na mesma rua, um ponto de venda fixo. De sua sabedoria, nascia e se consolidava o complexo de sebos do paredão da Assembleia, uma das propostas de comércio de livros usados de mais longa duração na capital. 

Contemporâneos ao complexo de sebos, foram os projetos realizados, nos anos 1980, por seu Nelson de transformar o acervo da Livraria Universitária, após seu encerramento, num sebo localizado em frente ao Mercado Público de Maceió; e pelo casal Roberto Santana dos Anjos e Maria do Socorro Santana de criar o Alfarrábio Nossa Senhora do Socorro (1985-2008), que funcionou também nas imediações do mercado até chegar a seu endereço definitivo na Rua Santos Pacheco, n. 151, no Prado. 

Os sebistas Ronaldo Augusto (esquerda), Samuel (centro) e Zito (à direita) na passarela dos sebos do paredão da Assembleia no final de 1980

Desse tempo para cá, novos sebos foram abertos em Alagoas. As mudanças graduais no perfil do público consumidor, que vai do segmento infantil ao idoso, principalmente das classes econômicas C, D e E, exigiu uma constante readequação no tipo e no preço dos produtos. 

Os empreendimentos ofertam até hoje títulos em variados gêneros, mas cada vez menos negociam raridades. A ampliação do comércio com as novidades tecnológicas das áreas de música e cinema, como LPs, CDs, DVDs e LDs, veio como uma resposta do segmento para a necessidade de diversificar os negócios e acompanhar as mudanças nos hábitos culturais do leitorado. Mas o livro sempre manteve, de geração a geração, seu posto de importância. 

Com a oferta de obras a preços acessíveis, os sebos, muitas vezes, são a única forma de acesso para pessoas menos favorecidas da população alcançarem conhecimentos em busca de sua autonomia econômica. 

Lucimar Lima Luna Santos leva, pela primeira vez, sua filha Daniela Santos Luna para conhecer os sebos do Centro de Maceió

Os alfarrábios O Livreiro e Nano Sebo, em Arapiraca, tornaram-se por um bom tempo os principais meios de contato da população com as produções literárias, quando as livrarias ainda nem existiam na cidade. 

Em Maceió, muitos negócios abriram e fecharam. Nos anos 2000, algumas experiências transformaram o alfarrábio em lugar de encontro cultural. O Livro Lido, localizado na Rua Sá & Albuquerque, em Jaraguá, organizava, até o ano de seu fechamento, diversas programações artístico-literárias. Na rua do Uruguai, no mesmo bairro, o Sebo Dialética, gerenciado pelo escritor Marcos de Farias Costa, continua sendo um ponto de referência para músicos, escritores e intelectuais.

Apesar das instabilidades econômicas, os sebos do paredão da Assembleia e de sua vizinhança conseguiram resistir ao tempo. O complexo passou por uma reforma e funciona hoje com quase 10 empreendimentos distribuídos em 25 espaços físicos (lojas e quiosques). 



Ronaldo Augusto Tenório dos Santos, ex-ajudante de seu Biu, dirige um dos sebos mais antigos, o Alfarrábio cultural. Com uma trajetória de tempo próxima, continuam em atividade o Escritos e discos, de Edvaldo José Pereira, e os sebos do Samuel e do Adilson. O complexo reúne também os sebos Rei dos Livros, Solar discos e Alfarrábio Shalom gerenciados, respectivamente, por Rendrickson Silva, Jailson Alvim e pelo casal João Bosco e Kátia Maria. 

O alfarrábio Herói dos livros, pertencente a Romildo Silva (Rommy), que também possui longa atuação, mudou de nome e passou a ser chamado, em 2026, de Clubinho dos usados, sendo administrado por Miriam Soares dos Santos. Já a banca Rio vintage sound aberta, neste mesmo ano, pelo casal de cariocas Kátia Maria e João Bosco, encontra sua origem na Feira de Discos de Maceió, realizada no Mercado das Artes, em Jaraguá. 

Samuel, Jailson, Adilson e Edvaldo, sebistas do Paredão da Assembleia

A Solar discos possui uma filial no Centro, localizada na Rua do Imperador, como também realiza atividades itinerantes em feiras e eventos literários na periferia e na parte alta da cidade. O sebo tornou-se uma referência comercial das produções alagoanas independentes de livros, discos, revistas, fanzines e artes visuais, e possui um selo musical voltado à revelação de novos artistas. No ambiente da filial, acontece a programação da Sexta Solar, evento que reúne DJs, escritores e realizadores do audiovisual. 

Interior da Solar discos na filial da Rua do Imperador

Com a adesão de Alagoas ao comércio eletrônico, alguns vendedores de livros usados começaram, por volta de 2013, a conduzir seus negócios no formato híbrido: físico e virtual. A Estante virtual, uma plataforma digital de compra e venda de livros em operação no país desde 2005, destaca-se como um dos principais canais de comercialização. 

Vários sebos, livreiros e pessoas físicas cadastrados na rede vêm de cidades como Arapiraca, Junqueiro, Maceió, Maragogi, Palmeira dos Índios, Pilar, Satuba e São Miguel dos Campos. A receita com o comércio virtual se equipara ou chega a superar, em alguns meses, as vendas de livros físicos. No período de clausura do Covid-19 (2020-2021), as compras na internet foram a principal fonte de sustentação de alguns comerciantes.

Os títulos em circulação atendem a uma clientela, em sua maioria, interessada em assuntos contemporâneos, generalidades ou temas ligados a estudo e trabalho: obras didáticas, ficção, Histórias em Quadrinhos (HQ), livros mais vendidos, os famosos best-sellers, e aqueles adotados em escolas, universidades e concursos. 

O pouco interesse pela aquisição de obras únicas de preço alto talvez seja um dos motivos para a escassez desses produtos nas estantes locais, diferente do que acontece com a procura por discos raros, principalmente LPs.

Assim como as livrarias, o comércio de livros usados persiste em Alagoas como um ato de sobrevivência econômica com algumas pitadas de utopia. Desde o ato de ser comprado e lido e depois recomprado, vendido e relido, o livro usado segue sua função de vagar de mão em mão. E a missão do vendedor de sebo é manter seu radar em sintonia com as demandas do leitorado, independente do tempo de uso e do valor literário do livro.      

FONTES: Matéria Maceió: A capital que quer, mas não consegue ler, por Elayne Pontual. Disponível em: medium.com/ Foto dos sebos nos anos 1980 e dos sebistas: acervo pessoal de Augusto Tenório dos Santos e de Edvaldo José Pereira/ Crônica A “Cândido”, publicada no livro Um tempo de Maceió, de Arnoldo Jambo. Maceió: Edições Catavento, 1998./ Tesouros nas prateleiras, de Paula Felix, publicação no seu blog pessoal, em 21 de julho de 2007.

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