FASE IV: INFLUÊNCIA DIGITAL E DE SEGMENTAÇÃO

Nas primeiras décadas dos anos 2000, a popularização da rede mundial de computadores plugado à internet e a especialização do comércio de livros alteram a dinâmica do varejo de livros em Alagoas. Essas transformações na tecnologia e no formato de circulação modificam a atuação das livrarias.

A presença da internet proporciona a criação do comércio eletrônico (e-commerce), dos livros digitais (ebooks) e das mídias sociais digitais, como Facebook, Instagram, Youtube e WhatsApp. O Submarino foi um dos primeiros sites no país a investir no comércio digital. A forma de divulgação literária também se modifica após a adoção do marketing digital. Com o uso de suas técnicas e recursos, a informação sobre os livros passa a chegar diretamente ao leitor. 

As livrarias físicas de Alagoas buscam, aos poucos, fazer a transição de seus serviços para o meio digital. Na capital, as livrarias dedicadas apenas ao livro vão ocupar bairros da parte alta como Farol, Gruta de Lourdes e Tabuleiro do Martins, e da parte baixa, Jatiúca, Ponta Verde, Pajuçara e, em menor intensidade, o Centro. As livrarias de rede continuam funcionando, mas com uma rotatividade de marcas nacionais. 

Nas cidades do interior, a realidade começa a ser modificada por um número acanhado de livrarias, abertas em shoppings e galerias comerciais, a maioria em bairros com concentração de pessoas das classes média e alta. As livrarias-papelarias também crescem e se espalham por vários bairros da capital e do interior. 

Em Maceió, empreendimentos de rua como a Livraria e Café Ponto Central (1999-2005), criado em homenagem ao antigo Café Ponto Central, funcionam apenas no formato presencial e, alguns deles, mantinham com regularidade uma programação cultural na sua sede. 

Só por volta de 2005, as facilidades do comércio eletrônico começam a ser incorporadas no dia a dia das empresas de varejo de livros de Alagoas. Algumas livrarias decidem criar suas lojas virtuais, incluir nos seus catálogos os livros digitais e fazer uso das novas mídias para a promoção dos livros. A livraria da Edufal destaca-se como uma das pioneiras do estado no comércio eletrônico e na oferta de livros digitais acadêmicos.   

As empresas de rede, como Livraria Leitura (2013) e Cia dos Livros (2015), também marcam sua presença no meio de circulação. Nota-se o aparecimento ou consolidação de projetos de rua como a Livraria da Editora Viva (2012), La Cittá Livraria (2019) e Livraria da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.  

Algumas livrarias, assim como editoras locais, direcionam sua linha de atuação para as necessidades de leitura de determinados nichos de público, e mantêm-se em sintonia com as facilidades digitais. O varejo especializado de livros abrange uma diversidade de gêneros e assuntos. 

Os empreendimentos dedicados apenas a livros de religião foram os que mais cresceram. A presença de livrarias de rede como Paulus e Paulinas, e projetos locais, como a Livraria Bezerra de Menezes, ligada à Federação Espírita do Estado de Alagoas, entre outras espalhadas no interior, buscam acompanhar o ritmo crescente de adeptos de várias denominações religiosas do estado. 

Iniciativas como a Livraria da OAB/CAAAL, Nova livraria jurídica e Nova Livraria respondem a demandas da área do direito, apontado como um dos cursos mais procurados pelos estudantes brasileiros. 

Na área de literatura, a editora Trajes Lunares e os selos editoriais Loitxa Lab e Leia Alagoas comercializam em suas lojas virtuais apenas títulos de poesia e prosa. Um dos projetos mais ousados veio da Livraria Novo Jardim (2022-2026), que funcionou a partir da seleção curatorial de produções locais e brasileiras de literatura, especialmente aquelas lançadas por editoras independentes. 

Ocorre, além disso, um aumento na circulação de obras dos segmentos juvenil e do livro para infância, formado por edições literárias infantis e infantojuvenis.

Especializadas em livros dessa área, a Livraria Bêabá e as lojas virtuais das editoras locais Mundo Leitura, Editora Matriz, Editora CAB e parte do catálogo da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, incentivam o comércio dos títulos para infância e juvenil e contribuem para a organização profissional desse segmento.

No nicho de livros voltados a estudantes universitários, a abertura da Livraria e Café da Editora da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), em Arapiraca, representa um símbolo do florescimento da rede de ensino superior, em decorrência da interiorização da Uneal, da Ufal e dos Institutos Federais de Educação (Ifal). Sua existência confirma os efeitos positivos dos investimentos públicos na área de educação, com a abertura ou ampliação de vagas em faculdades, universidades e institutos federais.  

Algumas ações volantes de varejo de livros valorizam a circulação de publicações independentes locais e nacionais, que ainda hoje enfrentam obstáculos na sua distribuição. A proposta da livraria itinerante do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) insere os livros de literatura, política, sociedade e meio ambiente no contexto das feiras da reforma agrária em Alagoas. O projeto atinge pessoas com baixas condições econômicas e dificuldades de acesso a uma livraria. A livraria Quilombada, iniciada como portal e hoje voltada à realização de feiras e venda de livros a domicílio, por meio de WhatsApp, absorve o comércio de livros de autores e autoras independentes de Alagoas.

Diante do excesso de informações e ofertas de livros em circulação no meio digital, o caminho encontrado pelas livrarias alagoanas foi manter-se em sintonia com as necessidades dos novos tempos. 

Em lugar da noção de público como uma massa homogênea, as livrarias passaram a ouvir as demandas de uma pluralidade e diversidade de vozes: mulheres, negros/as, LGBTQIAPN+, indígenas, quilombolas, populações tradicionais, pessoas com deficiência, pessoas idosas, culturas infantis e juvenis, movimentos de luta por teto e terra. A valorização da produção independente e a especialização do varejo de livros vieram como respostas a essas e outras mudanças no comportamento do leitorado. 

Esse pequeno panorama confirma o quanto sobreviver de livros em Alagoas continua sendo um ato de heroísmo, desde a abertura de sua primeira livraria em 1872. As livrarias desaparecidas no caminho e aquelas que insistem em permanecer ativas tiveram e ainda têm o papel de contribuir com a construção do hábito de leitura e com as práticas das instituições educativas e culturais. Como elas atuarão no futuro? Pouco sabemos. Mas no presente elas já respondem pelas pequenas e silenciosas revoluções do cotidiano.