FASE III: CHEGADA DAS LIVRARIAS DE REDE NACIONAL

Durante os anos 1990 até início de 2000, a realidade das livrarias em Alagoas sofre os impactos do processo de expansão urbana. Com a ampliação das rodovias e meios de mobilidade, o traçado urbano das cidades alagoanas cresce para várias direções. A oferta de serviços e produtos também aumenta de maneira descentralizada e leva a população a optar por espaços de consumo de livros com maior segurança, conforto e proximidade de sua área de residência e trabalho. 

A dispersão de espaços de serviços e produtos atinge a região central de Maceió e de outras cidades alagoanas. Muitos cafés, cinemas, editoras, gráficas e livrarias de rua ali existentes acabaram fechando suas portas.  

No final dos anos 1980, foram criados os shoppings centers e galerias comerciais em locais estratégicos de Maceió e, anos depois, em Arapiraca. Com a fixação desses espaços na paisagem urbana, aparecem as primeiras livrarias de shopping, a pioneira Livro Mac e outras vinculadas a redes nacionais, entre as quais, Sodiler, Laselva e Nobel. 

As livrarias de rede instaladas dentro e fora desses centros de compras tinham possibilidade física de estocar mais livros e uma ampla margem de negociação com editoras e distribuidores, o que garantia a comercialização de livros nacionais a preços atrativos. 

Com menos espaço de escuta ao público local, os laços de proximidade entre livreiros e leitores foram enfraquecidos por uma mera relação de consumo. Além disso, a oferta de produtos a partir de um padrão médio nacional de preferências literárias causou um acentuado aumento no fluxo de livros mais vendidos, os chamados best-sellers, e um enfraquecimento na diversidade de títulos nacionais e estrangeiros. 

A resistência dessas livrarias em absorver as obras produzidas em Alagoas causou uma série de embates no meio literário. As editoras locais ficaram impossibilitadas de negociar diante da aplicação de altas taxas de consignação e da obrigatoriedade de ser representada por uma distribuidora. Tanto as editoras como a comunidade autoral alagoana se posicionaram contrárias a esse tipo de comércio em blogs e matérias divulgadas em TVs e jornais da época. 

As livrarias de rede chegaram a montar no seu ambiente interno uma estante exclusiva de livros alagoanos, mas a ideia não foi bem recebida. Também houve a tentativa de organizar eventos e lançamentos literários envolvendo as produções locais. Nada disso foi suficiente para abarcar a oferta crescente de livros publicados pelas editoras e gráficas-editoras do estado. 

Com poucas livrarias e até mesmo editoras disponíveis, alguns autores e autoras independentes criaram caminhos próprios de comercialização. Para compartilhar sua produção literária, realizavam bate-papos em escolas, seguidos da venda e sessão de autógrafos de seus livros e montavam sua rede de circulação informal em lançamentos organizados nos mais diversos espaços alternativos.

A intervenção dos autores na promoção de seus livros contribuiu para a autoconsciência do seu papel social. Ao adquirir uma presença performática, sua imagem se projeta nos espaços de circulação do livro e há uma maior interação com o leitorado. A escritora Arriete Vilela é um dos nomes mais representativos dessa mudança de atitude autoral.

Além das livrarias de rede, outro entrave enfrentado pelas livrarias locais era a omissão do poder público. Faltavam linhas de financiamento e leis protecionistas para o fortalecimento desses espaços às necessidades dos novos tempos. Diferente do que acontecia em outros estados, o governo estadual e as prefeituras municipais de Alagoas não investiam em programas de compra de livros locais para a formação de acervos nas bibliotecas públicas escolares e municipais. 

Apesar da ausência de políticas de incentivo e do impacto da presença das livrarias de rede, as poucas livrarias locais dessa fase conseguiram sobreviver. Algumas passaram por readequações ou migraram para bairros com concentração de público das classes média e alta. Só quem manteve uma linha de crescimento nesse tempo foram as livrarias-papelarias, pela sua relação direta com as escolas na comercialização de livros didáticos e literários.

FONTE: O termo presença performática foi extraído de Ficção brasileira contemporânea, de Karl Erik Schollhammer. Evandro Nascimento (org.). Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2009.