FASE II: AUGE DAS LIVRARIAS DE RUA

De 1960 ao final de 1980, a realidade das livrarias em Alagoas continua a se expandir com a abertura de novos empreendimentos, principalmente na capital, em bairros como Centro e Tabuleiro do Martins. 

Apesar de boa parte dessa fase ser coincidente com o período ditatorial (1964-1985), o varejo de livros conseguiu sobreviver às restrições políticas. O perfil do leitorado alagoano até então dominado por camadas sociais urbanas ligadas ao meio literário e cultural e ao mundo do trabalho absorve agora uma maior demanda dos anseios estudantis. 

O principal motivo disso foi o crescimento na oferta de vagas do ensino básico e do ensino superior das redes pública e privada, com o aparecimento de novas escolas, faculdades e centros de formação. Com maior senso crítico e ferramentas para a construção de ideias, os estudantes intensificam sua presença nos espaços de participação política e de criação e circulação de livros. 

Nesse tempo, é criada, em Maceió, a primeira universidade do estado, a Universidade Federal de Alagoas – Ufal (1961), e a Escola de Ciências Médicas de Alagoas – ECMAL (1968), chamada depois de Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal). Em Arapiraca, instala-se a Fundação Educacional do Agreste Alagoano – Funec (1970), conhecida hoje como Universidade Estadual de Alagoas (Uneal). 

A ampliação de vagas no ensino repercute no aumento do consumo de obras. Novas livrarias-papelarias são inauguradas em cidades do interior e na capital para atender às demandas estudantis, algumas delas abrindo e fechando de maneira sazonal, no ritmo do calendário escolar. Em meio a materiais de escrita, arte e pintura, suas prateleiras reservavam espaço para os livros didáticos e de literatura adotados nas escolas. 

As livrarias com maiores acervos de livros atendem a estudantes, teóricos e pesquisadores consumidores ávidos de obras de história, política, sociologia, literatura e áreas afins, alguns deles de posicionamento democrático e ligados a partidos de esquerda. 

Maceió assume, outra vez, o posto de cidade concentradora do maior número de livrarias. Nesse período, entram em atividade no meio de circulação dos livros a Livraria Castro Alves (1967), que era dirigida pelo livreiro José de Almeida Barros. Seu Nelson estava à frente da Livraria Universitária (1970), projeto depois transformado num sebo que funcionava em frente ao Mercado Público de Maceió. 

A Livraria Segal Cultural é criada por Amaury de Medeiros Lages em 1972. Entre 1977 e 1984, instala-se e funciona em Maceió a filial da Livro 7, fundada no Recife por Tarcísio Pereira. O estudante do curso de Psicologia, Eronildes José de Carvalho, abre a Eron Livros no ano de 1978. A parte alta da capital recebe pela primeira vez um espaço de comercialização de livros, com a atuação da Livraria da Editora da Universidade Federal de Alagoas – Edufal (1983). 

O acervo da Livro 7 é transferido, em 1984, para o irmão de Tarcísio Pereira, o livreiro João Maria Fernandes Pereira que funda a Livraria Caetés e passa a gerenciar o projeto com seu irmão Ricardo Pereira. Foi a partir da convivência e experiência de trabalho como gerente da Livro 7 que seu ex-funcionário, de nome Valfredo Bernardo de Sena, decidiu abrir a Livraria Jorge de Lima (1984). Em 1986, Ricardo Pereira funda a Estação do Livro, a partir do acervo de uma das filiais da Caetés. 

Esses novos empreendimentos transformaram as práticas de comercialização. A começar pela organização bibliográfica e disposição dos livros, pensada de maneira a atrair leitores e leitoras e facilitar sua permanência no ambiente. 

Os balcões e as prateleiras altas das livrarias antigas foram, aos poucos, dando lugar a estantes e módulos onde os livros ficavam expostos com liberdade de acesso. O cliente podia localizar sozinho a obra pela sua área de conhecimento e folhear suas páginas com mais tempo, antes de efetuar a compra. Havia uma busca constante em criar estratégias de venda capazes de satisfazer as preferências do leitorado, respeitando, ao mesmo tempo, as diferenças nas suas condições econômicas. 

Essas livrarias modernas, em vez de dividir o tempo com os processos de edição e impressão, como acontecia com as livrarias ligadas a tipografias, assumiam apenas as tarefas de circulação dos livros. O propósito era movimentar o estoque de títulos em busca da fidelização de leitores e leitoras. 

O aspecto diferencial dessa fase está na atuação do livreiro experiente, aquele que lê as obras, sabe dialogar com o cliente e entender suas necessidades de leitura. Menos dependente da curadoria de editoras e livrarias nacionais, a seleção dos livros mantinha uma maior sintonia com as predileções do público e seguia um atendimento personalizado. 

Os livreiros vendedores tinham mais habilidade na escuta a seus leitores e um certo orgulho de ser eles próprios reconhecidos como leitores. As técnicas comerciais de persuasão eram as indicações literárias e uma boa prosa sobre seus conteúdos. Fiel à visão romantizada do livreiro experiente, a Livraria Caetés resistiu às turbulências econômicas e se tornou a livraria de maior influência desse período.

FONTE: Depoimento dado pelo escritor Marcos de Farias Costa a Simone Cavalcante em março de 2026 sobre a existência de livrarias dessa fase.