Willy Xavier

Willy Xavier

Maceió, AL (2002)

BIO

Poeta slammer e atriz. É graduanda do curso de bacharel em Design pela Ufal, atriz do grupo teatro Ambrosinas e cineclubista no Bete-Balanço Cineclube, pelo Ateliê Ambrosina. É uma das organizadoras do Slam das Minas AL. Foi campeã do Slam das Minas AL, em 2020, e a primeira alagoana a competir na nacional Slam BR.24 (2025). Participou com sua poesia slam de eventos como Vamos subir a serra, edições 2019 e 2021, e Bienal Internacional do Livro de Alagoas (2023). É presença ativa em recitais realizados em outros eventos culturais na cidade.

ESCRITOS

POESIA DE SLAM

Vários textos escritos e recitados. 

EU SOU DA TERRA DE ZUMBI

Eu sou da terra de Zumbi

Mas dele eu nunca ouvi

Querem que eu tire notas boas e passe no vestibular,

Mas o que eu deveria aprender eles não tem coragem de ensinar.

Saio da escola parecendo um careta, 

Por que nunca aprendi sobre a galera preta?

Quero ter a força e a coragem de Dandara

Que preferiu a morte do que voltar a ser escravizada. 

Vocês matam os meus e tentam acabar com a nossa cultura, roubam nossas terras e quer que eu me cale e não vá à luta?

Dentro da minha alma cantam os meus ancestrais

E eles gritam: começou não vai parar, quero ver ter coragem de tentar nos calar

Pretos, o estado quer nos matar, abram os seus olhos vocês precisam enxergar

Quantos? Me digam quantos pretos ainda vão precisar morrer 

Ou você vai esperar o genocídio negro pegar você?

Quer a paz retribuindo com violência, contraditório, qual é o seu problema?

Uma coisa que não entra na minha cuca

Por que bandido é sempre pobre de cor escura?

A PM racista já tem uma referência:

Se ver pretinho mira logo na cabeça

"Escravidão uma ova, isso nem existe mais                                                                         Que se exploda as cotas raciais e quem a ela vai atrás,                                                         se não for desse jeito, na universidade só vai ter negro"

Uma pergunta, desde quando diploma é passa livre pra ter uma conduta tão estúpida?

Se não houve escravidão me diz os motivos então, dos negros ter menos chances de servir uma profissão e alcançar os mais elevados níveis de graduação

Na periferia não chega informação

E muitos crescem achando que seu lugar é segurando um oitão

Mas não, vocês podem e devem estudar

E aos incomodados eu só me calo quando o seu preconceito acabar

A resistência deixa o estado louco de canto a canto

Mas eu encho o peito pra dizer que vai ter preto de beca se formando

E não é apenas uma possibilidade

Nisso eu realmente boto fé

Amém pra quem é de amém

Axé pra quem é de axé

Ei, não corre não, cuidado!

se continuar assim vão achar que “cê” tá armado 

Saio de casa com o coração a mil, tenho medo deles acharem que meu guarda-chuva é um fuzil

É tanta "confusão", que até pipoca pode te levar pra prisão

Preto? Com saco na mão? É droga, não tem pergunta não

Dá logo um chute pra entrar no camburão

Mas pra um branco espera até terminar a refeição

Eu quero é liberdade 

Sair na rua sem ter medo de morrer

Sem pensar que minha cor é um alvo 

E que o próximo pode ser você.

FERIDAS LITERAL

Quando a PM chega você já sabe:

Enquadro ou morte

Levar um tapão e ser liberado? É sorte

Quem deveria proteger mata, ameaça, espanca

Independente se é jovem, adulto ou criança

E tem gente que é ousada e vem falar que é mimimi

Se os papéis se invertessem, vocês iam aguentar tá aqui?

Mimimi é eu chorando depois de receber um esculacho 

do PM preto, que achou que eu tava vendendo droga

Porque coloquei no chão a mochila pesada na volta da escola

Os bandidos mais safados tão no ar-condicionado, de terno e gravata, somente coçando o saco

E que saco! os seus procedimentos de rotina 

Que só são necessários 

em casos de excesso:

de melanina 

Aplausos, a sua hipocrisia

Que diz amar o próximo

Mas na urna fez arminha 

Mas tira aqui uma dúvida minha 

Matar o próximo é algo que Jesus faria?

"Eu não escravizei ninguém"

E eu não levei chicotadas

Mas a segregação se reflete até hoje pra quem é da minha raça

Vendendo, nossa mão de obra barata

Para quem louva o suor 

Da injustiça Escravocrata

Preta, sobrevivendo pra servir 

Lutando, pra ser vista como gente

"Somos todos iguais"

A cor da pele que deixa tudo diferente

Um século depois da falsa abolição

Sinto na pele o ardor que ainda é real

O chicote é figurado, as feridas literal