Sérgio Prado Moura

Sérgio Prado Moura

Maceió, AL (1968)

BIO

Poeta e contista. Entre 2015 e 2019, coordenou o projeto @haicaicomwifi, com micro poemas autorais nas redes digitais. Publicou textos de ficção em antologias locais e nacionais, como a Revista Graciliano Arte (Maceió/AL), prêmio literário Maximiano Campos (Recife/PE), prêmio OFF-FLIP (Paraty/RJ), prêmio Rubem Braga (Cachoeiro do Itapemirim/ES), prêmio José Cândido de Carvalho (Campos dos Goytacazes/RJ), prêmio Paulo Leminski (Toledo/PR) e prêmio FUNCEF de literatura (Brasília/DF).

ESCRITOS

CONTO

Apuê (2014); 

O matador Antônio Assumpção (2019).

Bertinho

Volta do trabalho, como todas as noites. Tem os olhos pregados nas lanternas dos carros que não saem do lugar. Aperta o volante até os dedos ficarem roxos. O suor lhe escorre pela testa. Essa merda de ar-condicionado tinha que quebrar logo hoje. No ônibus ao lado, um bando de estudantes imbecis ri de alguma piada imbecil. Um motoqueiro com o escape aberto vem rasgando pelo corredor. Tem vontade de dar um tranco e arrebentá-lo no asfalto, mas lhe falta coragem. O ônibus acelera, e um tufo de fumaça lhe entope a garganta. Tosse. Enxuga o suor com uma flanela. Volta do trabalho, como todas as noites. Como todas as noites, sente ódio.

Hoje o ódio é de seu próprio nome. Ediberto. O que porra seus pais tinham fumado pra ter uma ideia bosta daquela? Uma gambiarra de merda armengada com pedaços do nome de cada um. O que eles queriam ser? Artistas? Poetas? Era o que faltava! Jumentos! Analfabetos! Desgraçados! 

Mas o pior é essa agora de Bertinho. Bertinho! Putaquepariu! Passa as mãos na testa suada, nos poucos cabelos; lembra do chefe cheio de intimidade, os dentinhos miúdos na boca frouxa: Bom dia, Bertinho. Está quatro minutos atrasado, Bertinho. Você tá amarelo, Bertinho. Deve ser verme.

E todo mundo ria. E o Bertinho também ria. Não agora, dentro do carro. Agora ele é o Ediberto, que tem os olhos duros e sente ódio. Agora pode se encharcar na raiva do seu nome, dos filhos da puta do trabalho, da sua vida filha da puta. Mas no escritório, na hora em que seu chefe falou, ele riu. 

Que ninguém pense que ele se arrepende. Fez o que era certo. Se desse pista de estar incomodado, era bem capaz de o imbecil passar a chamá-lo somente assim. Pior: capaz de botar o diminutivo na placa de sua mesa. O Ediberto faz uma careta, se imagina na mesinha em um canto, atrás de uma plaquinha de plástico vagabundo que informa seu ‘lugar na empresa: Bertinho - Auxiliar. Treme só de pensar na dupla humilhação. Auxiliar já é uma merda. Auxiliar de que, mesmo? De porra nenhuma, só sendo. Auxiliar é uma merda, uma merda, uma porra-nenhuma, um mero substituto de um chefe que não falta nunca. Se ao menos aquele merda adoecesse de vez em quando ele ia botar aqueles jegues nos seus lugares. 

Bertinho agora espanca o painel, buzina pros carros parados, pensa no Aderbal, o porteiro da firma, aquele amarelo, aquele sotaque paulista de merda. O suor cola a camisa nas costas do Bertinho, lembra do Aderbal atrás do balcão, cheio de erres e dentes na boca: Bom dia, Beirrrtxinho! Tudo ceirrrrto? 

Um caralho. Vão ter que baixar as cabeças. Vai ser Senhor Ediberto. Sente um arrepio, o Bertinho. Detesta seu nome, mas, na falta de outro, que pelo menos seja precedido do trato de Senhor. Senhor Ediberto. Não “Seu” Ediberto. Até aquele trambiqueiro do Olavo é tratado de “Seu Olavo”, só porque leva uns presentes pra os baba-ovos do escritório. É Seu Olavo isso, Seu Olavo aquilo. Aquele ladrão filho da puta. Um caralho! Vai ser Senhor. Senhor Ediberto. 

Logo vê a besteira que pensou. Ninguém mais chama o outro de senhor. Ah, se vivessem há cem anos. Iam ter que tirar o chapéu pra ele. Coça a cabeça, o Ediberto. Mas se nem chapéu se usa mais? Merda de tempo, esse nosso. 

Agora tem um pedaço de riso na boca. Imagina que um dia terá a grandeza que merece. A meritocracia ainda existe neste mundo. Ajeita o colarinho, arruma o resto dos cabelos no espelho. Vai ser Senhor Ediberto, tá decidido, mas agora tem assunto mais urgente.

***

O encontro foi marcado numa lanchonete a meio caminho de casa. O Ediberto não é de se arriscar. Nunca faz nada que ponha em jogo sua imagem: não fura o sinal, não joga lixo na rua, não para em vaga proibida, cumpre prazos, retorna as ligações e, quando tem alguém olhando, até dá esmolas. 

Se olha no retrovisor mais uma vez. Sou um homem de bem. Mas o motivo que me trouxe aqui é justo, inadiável e necessário. Repete em voz alta, assim solene, para se convencer de que o motivo é mesmo justo, inadiável e necessário. E de que ele, o Ediberto, é um homem de bem. 

Escolhe uma mesa mais afastada e pede uma Coca light. O homem magro com boné de águia chega e senta sem dizer nada. A troca foi rápida, dinheiro por pacote. O refrigerante ficou quase cheio em cima da mesa e o Ediberto já está no carro a caminho de casa. Enfim, vai ter sossego. O Ediberto sorri, acelera pela rua, que agora está bem mais tranquila.

Em frente à casa ao lado, a vizinha rega as flores do canteiro. Pela grade, o cachorro late para a dona. Late mais alto quando vê o Ediberto. Enquanto o portão elétrico sobe pra o carro entrar, cumprimenta a velha. Boa noite, dona Ana. É um bom vizinho. Estimado por todos no condomínio. Boa noite, seu Ediberto. Noite quente, né? Nem fale, dona Ana.  

Desce do carro no escuro, a lâmpada da garagem ainda demora um pouco pra acender. Precisa trocar a bosta do sensor. Já dentro de casa começa a andar rápido, vai largando as peças de roupa por onde passa. Pega uma lata de almôndegas no armário e mistura com o conteúdo do pacote que trouxe da rua. Ri de repente. Volta pra pegar as roupas e vai guardando cada uma em seu lugar devido, a camisa no cesto, a calça no cabide, os tênis na janela. Cheira a meia, pendura na janela acima do tênis. Liga a tevê, pega o pedaço de bolo gelado que sobrou da manhã, senta no sofá e espera. 

Por volta das onze, como todas as noites, a vizinha apaga as luzes e a casa fica em silêncio. O Ediberto volta à garagem, carrega até o quintal a escadinha de alumínio, arma junto ao muro, trepa até poder ver do outro lado. As almôndegas estão cheirando. O cachorro veio ver. Vai dar certo. Joga uma, duas. Desce e guarda a escada. Apaga todas as luzes. O efeito será rápido. 

Perto das cinco, acorda com os gritos da maluca da vizinha. Perdeu, Totó. 

Quando resolve levantar o dia está azul e fresco. Faz suco, faz café, faz torradas, toma uma ducha forte. Na saída encontra a vizinha na porta, desolada, o corpo do cachorro dentro de um saco plástico. Faz a cara mais sincera, o Ediberto. O que, houve?! Que tragédia! Ontem mesmo ele estava bem... A vizinha suspeita de um problema cardíaco. Coitadinho do meu Bob (sim, além de tudo se chamava Bob, a desgraça), qualquer coisa ficava ofegante, latia a noite toda, eu devia ter levado ao doutor. Pois não vai latir mais, miserável, e a senhora ainda vai economizar a grana da consulta, pensa o Ediberto, enquanto enxuga uma lágrima inexistente. 

Oferece ajuda. Não precisa. Meu irmão vem nos pegar para o sepultamento, muito obrigado. Foi assim mesmo que ela falou, a louca: nos pegar. Como se houvesse duas pessoas ali, e não somente uma velha inútil com um bicho morto num saco. Dá condolências mais uma vez, entra no carro e parte. 

Dos tipos de idiotas que há no mundo, talvez os mais desprezíveis sejam os que adoram bichos. Que gente desgraçada: dão comida a cães e gatos em troca de um afeto interesseiro, que os donos estúpidos acreditam mesmo que é amor, somente para aliviar a tragédia de suas vidas miseráveis. Ri. Agora não finge. Ri de vitória. E sai dirigindo feliz pela cidade, admirando no espelho sua cara de sucesso, alheio aos carros que buzinam ódio em mais um dia de trabalho.

***

E o dia de trabalho começa bem. Na chegada, o Aderbal lhe dirige apenas um sério e adequado bom dia, seco, sem intimidades. Isso é um bom sinal, pensa o Ediberto, enquanto caminha pelo corredor mais decidido que o de costume. Passa direto pelos colegas que fofocam perto da mesa de café, dá um bom dia genérico, sem olhar para ninguém; dois ou três retribuem, também sem olhar para ele. 

Senta à mesinha, e enquanto finge arrumar os papéis que sempre deixa ali pra parecer mais ocupado, pensa que o que fez essa noite foi como o início de uma revolução interior. Agora ele começa a se tornar agente desse mundo de merda, e não mais um subalterno passivo e humilhado. Parece mesmo que alguma transformação aconteceu dentro dele, e que isso já reflete nos seus gestos, no seu andar, e no modo como as pessoas o olham. Se sente poderoso, e isso é bom. Nem se abala com a chegada do chefe: Bom dia, Bertinho. Bertinho é a puta que pariu, diz pra si mesmo. E sorri. Bom dia, chefe. 

Está feliz, e não lembra de ter se sentido assim antes em sua vida mal vivida. É um sujeito de idade indefinida, o Ediberto, seus trinta e poucos anos, talvez um pouco mais. Não é alto como gostaria, mas não chega a ser baixinho; está um pouco acima do peso e tem entradas discretas sobre a fronte caprina. Os olhos grandes, verdes e chuvosos, lhe dão um aspecto frágil, quase infantil, o que em muitas mulheres suscita uma confusa e instantânea afeição. 

Para qualquer outro, isso seria motivo de alegria. Não para ele. Não tem tempo para paqueras, namoros, essas inutilidades. Quando sente desejo – e ele sente, embora preferisse que não – trata de se resolver com as putas da Ester. Vai lá na casa já fora da cidade, entra com o carro pela garagem dos fundos, longe da estrada e do olhar dos outros clientes. A Ester tem uma sala em que recebe clientes assim, com hora marcada para evitar encontros indesejados. Políticos, juízes, pessoas públicas, até padres. Gente de bem. E importante. 

O Ediberto ainda não é importante, mas paga bem e não dá trabalho. Vai durante a semana, quando o movimento é menor. A Ester já sabe seu gosto. Prefere as meninas novas na casa, não por preciosismo, mas para evitar qualquer ligação afetiva. Não pergunta o nome, não grava o rosto, não quer saber se a moça gostou. Na verdade, prefere que não tenha gostado. Se incomoda quando a Ester diz que as meninas perguntaram por ele. É que ele nunca as tratou mal, diz a Ester, como se isso fosse coisa muito rara. O Ediberto é gentil, discreto e polido. Detesta deixar qualquer tipo de má impressão. 

Ele é um sujeito de pele muito branca e sensível, das que ficam logo vermelhas de medo, vergonha ou raiva. Talvez por conta disso Bertinho tenha aperfeiçoado a técnica de enterrar as emoções. Sempre considerou os sentimentos algo que o tornava vulnerável. Mas agora começava a reformular essa opinião. 

Na noite passada, ele não só deixou que a emoção viesse à superfície: isso ele já costuma fazer nas noites em que, preso no engarrafamento, volta para casa e sente ódio. Dessa vez ele permitiu que esse ódio se materializasse em ação, um ato de liberdade, quase uma alegria.

Sentado à mesinha, finge arrumar os papéis e olha o chefe. Com a alma serenada, pode observar o sujeito até com certa empatia. O chefe – Antenor, seu nome – é uma figura inexpressiva e solitária, dessas que parecem povoar desde sempre os escritórios do mundo, e que só conseguem ter uma vida quando estão no trabalho. Mora só, como o Ediberto, em uma casa meio afastada, lá pras bandas da barragem. Sem vizinhos, sem perturbações, sem cachorros. Às vezes, quando vai à casa da Ester, passa em sua porta e sente inveja. Deve ser bom morar ali, no meio de tantas árvores. 

O Antenor, apesar de babaca é, pra falar a verdade, um boa-praça, e parece ter um apreço sincero pelo Ediberto. As brincadeiras idiotas não são por maldade, são só brincadeiras idiotas, mesmo. Até o convidou algumas vezes para jantar: metido a gourmet. O Ediberto sempre recusou. Foi polido, deu desculpas, fingiu lamentar, mas sempre recusou. 

E o convite para o jantar, chefe? Ainda de pé? A pergunta vai de supetão. A resposta do Antenor trai uma alegria insuportável. Claro, Ediberto. Deve ser muito sozinho mesmo, o chefe. O Ediberto quase sente pena. Sábado? Sim, lá em casa. Quem vai? Só a gente, e é melhor que ninguém saiba. 

O Ediberto sorri, não pensa mais no engarrafamento de todas as noites, no sotaque odioso do porteiro, no cachorro que lhe tirava o sono, na vizinha que certamente vai choramingar por mais uns dias. Pensa em como sua vida muda rapidamente; no futuro iluminado que abre as portas à sua frente. O Antenor também parece feliz. Hoje não gritou com o faxineiro, não humilhou a telefonista, não assediou a nova copeira. Antes de saírem, reforçam o combinado. O Antenor vai flambar uns mariscos. O Ediberto vai levar um vinho. Dois, pra garantir.

***

A conversa corre fácil ao redor do balcão. É como se estivessem ali, não o chefe idiota e o adjunto medíocre, mas antigos e bons parceiros, dessas amizades que o Ediberto e o Antenor jamais tinham conhecido. O vinho destrava as línguas, conversam, contam piadas, imitam trejeitos dos colegas, falam de filmes, falam de livros; o Antenor gosta dos franceses; o Ediberto, dos russos; falam do futuro, da infância, do medo. Depois calam. Estão bêbados. 

O Ediberto vai buscar uma caixa de alfajores no carro. Não pense que é pra adular, Antenor, não sou puxa-saco, é só gratidão. Que é isso, Bertinho? O Antenor tem a solenidade dos bêbados. Agora somos mais do que colegas. Estende o braço de forma teatral, o aperto de mãos é demorado e caloroso: são amigos.  

Na volta para casa, chove cada vez mais forte. O carro patina, desliza, ameaça despencar das pirambeiras, mas o Ediberto não desacelera, dirige com arrojo, tomado por uma alegria feroz. Não vai mais pisar no freio. Não vai. Um dia, amanhã ou na próxima semana, o chefe vai abrir o presente. Talvez se esparrame no sofá pra ver um filme, talvez abra um livro, talvez um vinho, e vai comer os alfajores com verdadeiro gozo, agradecido por ter finalmente um amigo. O efeito será rápido. Bertinho é a puta que pariu.