Sara Albuquerque

Sara Albuquerque

Maceió, AL (1990)

BIO

Escritora. Mestra em Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Trabalha com leitura crítica, lapidação de textos, leitura em voz alta e textos por encomenda na OXIBÁ casa da escrita, desde 2022. Foi assistente em Administração na Ufal, com lotação na Faculdade de Direito de Alagoas (FDA), de 2012 a 2015, e como integrante da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal), de 2015 a 2019. De 2014 a 2015, foi tutora on-line na Especialização em Direitos Humanos e Diversidade (UAB/Ufal). De 2015 a 2017, trabalhou como co-roteirista na Staff áudio vídeo, onde desenvolveu sete episódios da série de animação infantil O incrível mundo dos Malbets (BRDE/FSA, 2014). Desde 2020, trabalha na Advocacia-Geral da União (AGU), com sede em Porto Alegre/RS. Egressa da Oficina de Criação Literária (com o escritor Assis Brasil), pela PUCRS, e do Laboratório de Expressão e Criação Literária, pelo SESC-AL, nos módulos prosa (com o escritor Nilton Resende) e poesia (com o poeta Milton Rosendo). Participou do Circuito de Autores Arte da Palavra, pela Rede SESC de Leituras, em 2020 e 2021, e integrou a Turma CLIPE (Curso Livre de Preparação de Escritores), pela Casa das Rosas (SP), em 2024. Seus poemas foram traduzidos para a Revista La otra (México), na edição Voces femeninas de la poesia brasileña actual, e para a Literaria esteros (Argentina – Uruguai), na Muestra de poesía contemporánea la juventud de la poesía en Brasil. Participou da organização da VII e da IX Bienal Internacional do Livro de Alagoas, edições 2015 e 2019. Nas redes sociais, compartilha conteúdos de literatura e leitura em voz alta no @leituraquesara.

ESCRITOS

POESIA 

Sete centímetros de língua (2018); 

Giz morrendo (2018); 

Caspas e muriçocas (2021). 

LIVROS PARA INFÂNCIA

Ei, você viu Luizinho? – versão

para colorir (2016); 

O segredo do rio Mundaú – versão

para colorir (2016); 

O embrulho misterioso de Nina (2014, em coautoria); 

Ei, você viu Luizinho? (2014); 

O segredo do rio Mundaú (2011).

Bartolomeia

Bartolomeia virou zigoto por volta de treze horas depois dum sarro entre sua mãe e um sujeito da vizinhança de quem não herdou memória nem sobrenome e a quem também nunca chamou de pai, eis que o infeliz se emputeceu quando descobriu dona Flor embuchada, que, na época, nem era dona, só Flor, pois devia ter uns catorze anos nas costas, e contam as línguas do bairro que, na noite em que tomou clareza das notícias do embuchamento, o rapaz jurou de pé junto que não chegou nem perto de meter o bilau por entre a calçola da dita cuja, devendo ela mesma provar perante o nosso senhor jesus cristo que ele era o pai da criança e, tendo ele decidido dizer umas poucas e boas pra dona Flor, que, na época, nem era dona, só Flor, pois devia ter deixado de brincar de boneca fazia pouco, então pagou a comanda do bar dispensando a necessidade de troco, saiu no meio da rua e, como que não vendo o sinal vermelho, foi atropelado pelo carro da funerária deus-acolhe-a-todos, caindo no asfalto mortinho da silva.

Dona Flor ficou conhecida no bairro do acontecimento e nos bairros vizinhos quase todos, contando a internet que rolam boatos da história até mesmo nos estados unidos, pois que ela também passou a jurar de pé junto que não houve penetração de bilau-boceta com o sujeito da vizinhança que morreu, deus o tenha, sinal da cruz, e que Bartolomeia, coitada, foi concebida mesmo de um sarro, e, nessa situação, pois, dona Flor ainda era virgem, mas não do horóscopo, virgem mesmo, como explica o livro de ciências, na parte de sexualidade, página setenta e oito: quem nunca fez sexo; quem possui hímen vaginal; quem é casto, puro, santo; e isso fez dona Flor achar foi bom quando o médico disse que o parto seria cesariano, porque poderia se manter virgem por pelo menos mais um pouquinho de tempo, enquanto não aparecia o felizardo que iria lhe afrouxar o coração e as pernas, o que, como é sabido por todos, não foi o caso do moço da vizinhança que morreu, doando o espermatozoide à vinda de Bartolomeia, mas não sendo, por sua vez, pai, porque ser pai diz respeito à ação humana muito mais complexa.

O nome de Bartolomeia era pra ser Bartolomeu porque, não estando a barriga de sua mãe muito pontuda e nem ela tendo sentido desejo de comer morango, garantiram os entendidos de prenhas que seria menino, e dona Flor ganhou berço, roupas, sapatos, foi de um tudo azul e verde, e naquele alvoroço de chás de bebê e cozinha e fraldas, alguém lhe perguntou qual ia ser o nome da criança, só que dona Flor ainda não tinha pensado no assunto e mentiu que ia ser surpresa, mas, naquela noite, foi logo de pesquisar na bíblia qual ia ser o nome mais adequado, Lucas, Pedro, José, João, já tinham muitos desses no universo e não queria ver seu filho na escola sendo intitulado de Lucas um ou Lucas dois, então decidiu ver o nome dos outros discípulos e descobriu por lá Bartolomeu, ora vejam, poderia chamar de Bartôzinho quando fosse ainda miúdo, e Bartô, tira essa toalha de cima da cama, Bartô, vem almoçar senão vai esfriar a comida, era mesmo de um nome muito bonito, e sendo católica não praticante, uma modalidade de católico que vai à igreja de vez em quando, principalmente no natal e na páscoa, mas acredita muito em deus com todas as suas forças e até dá esmolas, dona Flor não sabia que Bartolomeu era citado na bíblia poucas vezes e que das suas obras quase nada se sabia, pois o que importava mesmo era que aquele nome tinha origem sagrada e, de quebra, servia pra fazer apelido agradável.

Foi então, no dia dois de novembro de noventa e dois, que Bartolomeia veio ao mundo de olhos fechados e não emitiu nem um bocadinho de som ou de lágrima, fazendo o povo do hospital ter susto de que a menina tinha nascido morta, e era dia de finados, minha nossa senhora, que azar, que coincidência, mas lhe meteram o estetoscópio no meio dos peitos e, milagre seja dito, parecia zabumba tocando lá dentro, comprovando, pois, a existência de uma vida primária, ainda que não se pudesse constatar apenas com a frente dos olhos, e tendo, em seguida, a enfermeira entregue a menina nos braços de dona Flor, esta lhe deu três tapas na bunda porque onde já se viu esse negócio de não chorar, reparem que nasceu enganando até os mais entendidos, é menina, é menina, vai ter que se chamar Bartolomeia, ao que a criança abriu os olhos azuada com o que acabara de acontecer, carregando nas pálpebras o peso de sua primeira culpa, uma culpa que lhe fez companhia na sombra, mesmo depois de crescida e menstruada e estudada e mulher feita.

Não tendo as intenções de magoar ninguém e guardando medo até de barata morta, não se sabia se por decisão maturada ou se por tão repetida que dela se tornou difícil se desvencilhar depois de acostumada, Bartolomeia preferia dizer sim, todo dia sim, toda noite sim, qualquer hora era hora, pro povo de casa, pros amigados, pro reitor, diretor, coordenador, zelador dos trabalhos xis, ipisilom e zê, porque ela era muito produtiva e tinha diplomas de vários cursos, de todas as experiências possíveis e imagináveis, até pelo sesque, senaque e sesi, que contavam muitas linhas no seu currículo látis, o qual ela já atualizava logo na madrugada em que recebia o certificado, depois dava um sorriso assim meio de lado, ufa, agora vamos para o próximo.

Bartolomeia carregava no rosto um sorriso amarelo que a mãe discutia ser de excesso de café, pois que a moça deveria fazer um branqueamento no dentista, pagar em três vezes sem juros no cartão, mas ela achava isso uma perda de tempo e dinheiro, igual essas falações de que tinha de dormir oito horas por dia, não fazia sentido nenhum quando poderia dormir apenas três ou quatro e se sentir bem e se sentir ótima, e também diziam que tinha de fazer exercício físico pelo menos três vezes na semana, mas ela também achava perda de tempo e dinheiro, novamente não fazendo sentido nenhum, visto que já se sentia bem e se sentia ótima, tinha uma tendência natural à magreza, coisa de genética, tanto por parte de dona Flor, tão apalitada que dela se via o formato das clavículas por cima da blusa, quanto por parte do sujeito que lhe doou o espermatozoide para que pudesse vir ao mundo, contando os vizinhos que este era tão alto e esquelético que seu codinome era vara-pau.

Então os anos se passaram e Bartolomeia foi eleita várias vezes a melhor trabalhadora do ano, ganhou medalhas, dois beijinhos, conheceu o chefe quase-nunca-visto do topo do topo do topo da galáxia empresarial, e ainda um incentivo: continua assim, Bartolomeia: precisamos de mais Bartolomeias no mundo: vamos plantar pés de Bartolomeias, e todos aplaudiram e ela também se aplaudia, ficando mais tempo no trabalho mesmo depois de bater o ponto de saída, trato que havia feito com o chefe visível do setor bê, para garantir que não iria requerer horas extras no futuro via processo judicial, que mané troço de processo judicial, Bartolomeia era mulher de palavra, nunca faria isso, então religava o computador e voltava com todo o gás para dar cabo das metas e das metametas, pois gostava de se desafiar e fazer mais umas especializações onlaine sem sair de casa, com um descontinho básico, aquele descontinho que o brasileiro gosta.

Até que um dia, não se gravou a data porque não era feriado, a impressora de Bartolomeia, situada no décimo nono andar do prédio quatorze da rua éfe, danou-se a apresentar uns tais de problemas técnicos, problemas técnicos esses que ela não fazia ideia de como resolver e precisava por demais imprimir um relatório para levar à reunião que aconteceria, sem nenhum atraso, às treze horas, em ponto, todos na sala sentados com suas devidas posturas eretas de pessoas sérias, em ponto, mulheres com camisa de botão e salto alto e homens com paletós e gravatas a combinar, então contam os funcionários presentes e não presentes, haja vista o espalhamento da notícia via uotizápi, que Bartolomeia se iniciou a dar uns petelecos na impressora com problemas técnicos e, não tendo surtido efeito na resolução do caso, passou a agredi-la com tapas e murros e muitos, muitos, muitos xingamentos, ao passo que a impressora com problemas técnicos ficou com mais problemas técnicos ainda, e a moça, acusada de surto, chilique e histeria, foi mandada pra casa, recebendo dias depois um aviso de sua demissão por justa causa e uma nota fiscal referente ao conserto que deveria fazer daquela impressora super mega ultra tecnológica, importada, meide in chaina, devendo, pois, tratar de resolver logo ou, caso contrário, eles se veriam no tribunal e dessa vez não iria ser o chefe quase-nunca-visto do topo do topo do topo da galáxia empresarial quem lhe encontraria, mas sim um advogado recém-formado qualquer, pois a empresa não gastaria a energia do seu jurídico para pequenas causas como aquela, e um advogado recém-formado qualquer acabou de fazer a oabê e postou no feicebuque com a rechitegue vamos fazer justiça, mesmo que só seja contratado para fazer audiência por vinte reais, é pegar ou largar, se tá achando pouco, tem quem queira, e os amigos dele terão dito pra aceitar porque é assim mesmo, início de carreira sempre tem umas humilhaçõezinhas, é normal, e Bartolomeia poderia ter dito que em qualquer momento da carreira ocorriam humilhaçõezinhas, mas Bartolomeia era simpática, exemplar, a melhor do ano e preferia dizer sim.

Envergonhada, decidiu que deveria se desculpar por aquele incidente da impressora com problemas técnicos, não sabia onde estava com a cabeça, pegou espírito, valei-me, o psiquiatra disse que era estresse e ela deu uma gargalhada na cara dele lhe alcançando um cuspe nos pelos da barba, saiu da consulta e foi direto na empresa, dirigindo-se à sala do chefe, sob os cochichos e olhares curiosos dos colegas, ex-chefe, ele disse, e Bartolomeia se pôs a chorar pedindo perdão, muitos perdões, por favor, e foi quando avistou pela parede de vidro a sua cadeira, a sua mesa, o seu computador, tudo que era seu sendo utilizado por uma outra mulher de óculos, provavelmente as unhas feitas e a maquiagem impecável, e sentiu se alastrar por suas vértebras um aperto tão desafortunado que a fazia ter vontade de tossir pra dentro, não conseguindo lembrar como fazia pra respirar, tendo o que se chamou de avecê que a levou à morte repentina, contando as testemunhas que a última palavra gritada por Bartolomeia foi um exausto não.