Pablo de Carvalho

Pablo de Carvalho

Maceió, AL (1978)

BIO

Escritor, compositor, delegado de polícia e psicanalista. Seu primeiro livro de poesia, Iulana, foi contemplado com o Prêmio Alagoas em Cena 2009, e o segundo, com a Bolsa Funarte de Criação Literária.

ESCRITOS

ROMANCE

Iulana (2009); 

Catracas púrpuras (2012).

Vinheta

Dois olhos, injetados de pura raiva, enquadram a vítima. Mas a raiva, coisa densa e externa, está apenas nas sobrance-

lhas que se juntam em compressão, e nas pupilas sobre as quais as pálpebras caem diagonalmente: dentro do homem o ambiente é de calma. É tudo e o mais em silêncio e quietude. Em torno ao coração parece haver uma neblina, ou garoa de doce umidade, de manhã serrana, embora faça meio-dia em ponto no tempo de fora. O antebraço se contrai e enverga o indicador, que atrasa o gatilho – apesar de o movimento ser à retaguarda, passa tanta

sensação de avanço que nos confunde ver e sentir.

O cão, que tem forma de cavalo e aspecto de cão, segue em marcha à ré a intenção do irmão gatilho, de quebra girando o tambor como que com a ponta da pata.

De repente o esforço se detém. O gatilho para a milímetros do guarda-mato. O cão, que tem aspecto de cavalo e forma de cão (ou será o inverso?), oscila em gesto de touro estudando.

Uma pupila, em forma de túnel, mantém a visada perfeita; a outra, coberta da pálpebra, está desligada. O dedo avança (ou retrocede?) e o cão chifra o percussor que espeta a espoleta que incendeia a pólvora que explode e expande gases que empur-

ram o projétil pelo cano fora, e o projétil (agora, desaceleremos) avança com sua cena para o parágrafo abaixo.

O projétil, nave de chumbo com astronauta remoto, gira e perfura o ar, como uma broca (e isso, destoando quase deste jei- to de fazer literatura, é literalmente assim), preciso e espiralado, desfazendo-se de resíduos e fogo e fuligem e som, purificando- se a girar linearmente até entrar pela nuca de um homem cujos olhos só se esbugalham de susto quando o projétil já lhe extrapo- la os tecidos pelo orifício de saída.

Deixando para trás o corpo que se ajoelha, e antes mesmo de esse corpo ajoelhar-se, o projétil, rajado de sangue e polvilhado de fragmentos ósseos, choca-se contra um poste de concreto e ganha forma de cogumelo.

Esse cogumelo, uma vez rebatendo do poste – bem em frente à lente da câmera –, é cercado por uma expansão de pó, sangue, chumbo e farpas de ossos cranianos.

Justo nesse momento, justo quando as forças e as coisas se afastam e crescem para cessar, paralisemos a cena e enviesemos, saindo do nada, o nome Catracas Púrpuras.

Boa leitura.