MC Tribo

MC Tribo

Maceió, AL (1986)

BIO

Rapper, poeta e produtor cultural. Das periferias de Maceió, MC Tribo, nome artístico de Fernando Rozendo, faz da palavra um território de resistência, memória e construção coletiva. Com uma atuação de mais de 18 anos no cenário alagoano, ele se afirma como expressão da literatura periférica contemporânea. Integrante e fundador da banda Favela Soul, sua trajetória faz um diálogo entre música e literatura, explorando o rap como linguagem poética e política. Em sua caminhada solo, reafirma o compromisso com narrativas que colocam a periferia como centro de criação e pensamento, como também se dedica ao estudo da Pedagogia, campo onde desenvolve junto a jovens oficinas, palestras e projetos sobre o hip hop como prática pedagógica e instrumento de formação crítica. É também idealizador do Espaço Favela Soul, iniciativa cultural independente situada na periferia. O espaço promove ações formativas, encontros artísticos e atividades socioculturais que fortalecem o acesso à arte e à educação em comunidades.

ESCRITOS

POESIA DE RAP

Letras poéticas de canções de rap. 

IGUAIS

Alô! Som, dois, testando.

No microfone, Tribo falando.

Sempre em primeiro, o máximo respeito a todo ser humano,

seja indígena, ruivo, pardo, preto ou branco,

a lágrima que cai do olho é salgada em qualquer pranto.

A sombra que se reflete no apertar das mãos de dois homens diferentes

se refletirá de modo exatamente igual — somos todos parentes,

primos do primeiro ao centésimo grau,

do ciclo crescente da reprodução natural,

que ocorre de maneira independente.

Tão diferentes e tão semelhantes.

Classes sociais nos separam, números nos marcam,

e o amor se encontra cada vez mais em extinção abundante.

Somos todos iguais e filhos de um mesmo pai:

a majestosa mãe natureza,

que comanda até uma folha que cai.

Por isso, sempre acredito que podemos mais.

Não nos deixemos levar pelas doutrinas carnais.

Abra os olhos da mente e se deixe levar

por um passeio nas dimensões espirituais.

Sinta o peso do rap que te envolve mais e mais.

O sangue que corre aí na tua veia

é o mesmo que corre aqui na minha.

O sol que ilumina o seu resort

é o mesmo que clareia minha humilde casinha.

Então respira e sinta, encha o pulmão de ar,

e saiba que o oxigênio é o mesmo em qualquer lugar.

E sem titubear, me diz: o que vais levar

quando chegar a tua hora de ao pó retornar?

Com certeza, nada você leva — mas algo fica:

ações, ideias, lembranças e exemplo de vida.

Numa sociedade hipócrita, onde os valores sempre se invertem,

o conhecimento, o respeito e o amor sempre perecem.

Nos privam e nos limitam, nos confundem, nos enlouquecem.

O dinheiro escraviza, e o verdadeiro valor da vida todos esquecem.

Amor ao próximo é, e sempre será, o princípio da igualdade,

assim como o acesso à educação é do cadeado a chave.

Libertação não pelo canhão, mas sim pela intelectualidade.

O tráfico nas ruas deveria ser de livros, e não de crack.

O ponto-chave da parada é despertar o interesse pelo conhecimento

e fazer brotar a consciência crítica na mente de cada elemento.

Imagina uma legião de favelados, papel e caneta engatilhados,

ocupando as universidades — um verdadeiro pesadelo para o Estado.

Já chega! Liberdade e poder para o povo preto, agora.

Tá mais do que na hora de mudar o rumo torto dessa torta história.

Menos camburão, menos repressão, não mais corpos estirados no chão.

Não precisamos de mais presídios, e sim de muito mais escolas.

Periferia resiste! Escuta! Acorda! Levanta!

Não mais nos conformemos, pois quem espera não alcança.

Podem nos levar a vida, mas nunca a esperança.

Enquanto houver rap, seguiremos cantando e buscando mudança.

MUNDO EVOLUÍDO

Mundo evoluído… o homem vai ao espaço,

avanço sem sentido — e tanta fome aqui embaixo.

Sobrevivendo na matrix, sem nada no prato,

dinheiro é no Pix — tem que estar conectado.

Vê se enxerga, véi… saca o problema:

a rotina moderna espreme sem pena,

controla sua vida, toma sua paz,

sugam sua alma e ainda querem mais.

Vai lá postar pra geral ver,

o objetivo é só enganar você.

Mundo da ilusão, onde o like fascina,

mostra a melhor cena — a vida sempre linda.

Desigualdade em destaque, mas não tá na manchete,

a fome ainda mata meus irmãos do Nordeste.

Opressão é de praxe, preconceito persegue,

homens pretos ainda morrem nesse mundo high-tech.

Mundo evoluído… o homem vai ao espaço,

avanço sem sentido — e tanta fome aqui embaixo.

Sobrevivendo na matrix, sem nada no prato,

dinheiro é no Pix — tem que estar conectado.

Informação duvidosa, fake news aliena,

o controle se expande, o 5G só aumenta.

A favela ainda chora, a droga aqui aliena,

5G só no prato — e direto pra venta.

Vai, vai… que esse mundo é louco,

já não consigo mais entender.

Já não somos tão livres,

e são tempos difíceis — só o povo não vê.