Mattüs

Mattüs

Palmeira dos Índios, AL (1988)

BIO

Escritor, quadrinista, ilustrador, roteirista e músico. Começou sua carreira literária de forma autodidata, em 2006, com a autopublicação de quase trinta edições independentes de fanzines (abreviação de fanatic magazine), que circularam em Maceió e até na Espanha. Trabalha junto da Sirva-se Edições Alternativas e da Joelhos de Velho, editoras maceioenses responsáveis por quase uma dezena de livros publicados por demanda que circulam no mercado literário alagoano. Autor de cinco livros de ficção e diversos contos publicados em antologias, suas obras também são publicadas pela editora recifense Livrinho de Papel Finíssimo. Os enredos de suas histórias ficcionais exploram conteúdos ácidos que retratam lados inexplorados da cultura local, transitando pelos universos do suspense, ação, metafísica e horror. Organizador, em Palmeira dos Índios, de eventos culturais por meio do Coletivo escarcéu, como Desconcerto musical (2004), Grito do rock (2013), Palmeira underground I, II e III (2012, 2015 e 2016), Monstros no açude I e II (2017 e 2018), de eventos de arte e literatura como as duas edições da Mostra de arte livre palmeirense (2014 e 2016) e do relançamento de seu quinto livro Demônios da grande hora, em 2023. Sua experiência acadêmica como mestre em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação (PROFNIT/Ufal) impulsionou sua atuação como editor de livros. Entre as obras que editou, destacam-se a coletânea de contos Inferno tropical (2018), o livro Les petites morts (2020), da poetisa Flor de Lótus, Desejo e necessidade (2021), de Roselito Oliveira, A voz que não se cala, de Arabella Batelli, e a Revista febre do rato, lançada pela gráfica e editora Joelhos de velho. É roteirista do curta-metragem O panorama da carne (2013) e do média-metragem Surf kaeté (2015), produzidos pela Scoria Filmes, produtora de cinema formada por artistas de Maceió e Palmeira dos Índios.

ESCRITOS

ROMANCE

O beco das almas famintas (2016); 

A febre do infinito (2017); 

Filhos do nada (2024). 

CONTO

Demônios da grande hora (2019, 4 contos ilustrados); 

Alugam-se almas (2022, 4 contos ilustrados).

Paralelograma

Acordo de cinco. Um galo canta no quintal do vizinho e sei que é a hora em que o Sol começa a infernizar o mundo. Somente um fato me deixa intrigado: acordo todo dia cinco minutos antes de meu celular tocar e quando não o ligo, quase toda vez, eu me atraso. Minha cara no espelho é cada vez pior: couro quase apodrecendo em vida, tudo despencando, olheiras profundas que mais parecem marcas de necrose, barba despontando e alguns pelos grisalhos com cabelo caindo no meio da testa numa composição carnal parda de um metro e setenta e sete de amargura. A vida numa pequena casa no centro de Cordeirópolis é tudo o que tenho. Cruzei os anos entre as surras levadas dos outros moleques do M. Neves e a desistência no meio do ensino médio no Centro Educacional Estadual H. Mendes. Hoje vivo numa casa imprensada nas vielas do centro, bem de frente ao grande açude local, famoso por todo mês tragar banhistas ébrios direto para o inferno. 

Passei a vida vendo bêbados carnavalescos no pós-farra, querendo lavar a alma pra seguir o Carnaval. Logo após saltarem no açude, eram tragados pela lama podre do fundo para as profundezas da barragem. Quase sempre, os finados emergem horas depois com espírito e partes íntimas devorados pelos peixes e demônios daquele esgoto grotesco, restos de cadáveres disformes vez ou outra eram puxados pelos pescadores e entregues à polícia ou bombeiros. Como falou Justo Veríssimo “...esperto foi o prefeito de Cordeirópolis que mandou construir um açude bem no meio da cidade pra matar todos os pobres afogados!”. Inteligente mesmo foi o dono da funerária estabelecida bem em frente ao pequeno represamento que ornava o centro da cidade tendo como anexo um pequeno rossio com a estátua de uma formosa índia nua com seus mamilos de concreto, curvas cimentícias e detalhes íntimos esculpidos com um malicioso realismo. Várias vezes que passei chapado por lá, eu ouvia uma voz feminina me chamar para um mergulho.

O centro da cidade tem feira no sábado, calçadão topado de gente, exceto aos Domingos, este dia que enfadonho e gostoso para chapar o cocuruto. Farmácias, lojas de ferragens e construção, lanchonetes, confecções e serralharias. De todas, a construção civil era quem seguia sempre pipocando com casas em cima de casas, prédios em cima de prédios e caixas de fósforos disfarçadas de conjuntos habitacionais engolindo toda a natureza pelo frenesi material de que cada um tem que ter um chão pra viver e esticar as canelas. Falando nisso, desde que o cemitério dos ricos apareceu, o São Gonçalo perdeu o estrelismo, mas não o charme. Suas covas no meio da lama provavelmente lançam impurezas em algum lençol freático e como em várias cidades, o suco de cadáver pode ser tomado em qualquer torneira. Necrochorume, lixo funerário. A água da vida com o sabor de morte. Coisas que só uma cidade como Cordeirópolis tem...

Numa garagem perto de onde moro fica o meu ganha-pão. O dia só rende se começar cedo arrastando a maldita carroça de pão. É o exercício matinal que me rende o apelido de “He-Man do Pão”. Pãozeiro e vendedor de lanche das 7 às 10. Pão, salgados e suco com suor e cuspida pra saciar bem a sede do trabalhador. Carrinho de madeira, duas rodas de bike, buzina e berro ”Ó o pão, salgado e suco... Moça bonita paga metade, corno paga dobrado...”. O estilo zombeteiro pega melhor nas vendas do que fazer o típico papel de humilde lançando a todos os clientes a alcunha de “senhor” ou “senhora”, “patrão” ou “patroa”, “doutor” ou “doutora”, tentei esse jeito castanho de ser e o máximo que consegui foi ficar com cara e trejeitos de um “Uriah Heep” da vida. Era nojento. Melhor zoar tudo ao meu redor e viver despreocupado com o mundo enquanto todo mundo comer meu pão. Meu mundo é Cordeirópolis com suas ruas históricas tortas do centro, Alto da Cafurna, Maçonaria, Inferninho, Juca, Paraíso, São C. e P. de Fora, Sanfra, Brivaldüs, Juca e suas novas mansões, levando poeira na cara no Rodeio e infinitos confins da cidade com uma buzina por quatro horas seguidas das seis às 10. Carregar carroça de pão em ladeira é puro crossfit.

Uma manhã arrastando essa merda de carro e consigo a primeira parte da grana que me mantem vivo, gordo e corado. O complemento vem com a vida de entregador de pizza, drogas e passaporte na noite. Quando falo em drogas, preciso explicar que entrego remédios naturais receitados por um alquimista rastafári que mora nas serras e não quer contato com o mundo. Todo dia a mesma coisa: durmo a tarde inteira e um restinho da madrugada. Sono estabilizado pelo clonazepam, esse maravilhoso invento da indústria farmacêutica para esvaziar meu espírito e personalidade me transformando, aos poucos, numa máquina de ações cronometradas que dorme bem. Tudo daria certo se eu não bebesse e misturasse álcool com remédios. Isso me rendeu uns efeitos bem estranhos quando também comecei a fumar cigarrilhas de maracujá jamaicano, cheirar inseticidas e de vez em quando tomar ayahuasca com velhos hippies xamanistas que viviam muito além das serras que cerceiam a cidade, onde o tempo é comandado pela natureza e o homem é um mero visitante. Ouvia histórias absurdas em seus papos, coisas que iam de lobisomens e espíritos da terra até o lendário “envultamento”, a arte de se tornar um vulto. Certa vez, um ripongo me ensinou a desaparecer com a ajuda de feijões mágicos cultivados dentro de cabeças humanas enterradas à meia-noite. Eu só ficava pensando que tudo de mais divertido acontece essa hora.

Estudei no Estadual até o primeiro ano do ensino médio até perceber que bastava eu frequentar uma biblioteca que não precisaria ir à escola. Passei a fumar minhas cigarrilhas na linha do trem, grudado ao muro da biblioteca, a cada puxada de fumaça, eu absorvia os conhecimentos das obras ali presentes por osmose e divagava sobre o Mito da Caverna, Sísifo, O sofrimento masculino durante “A Greve do Sexo” retratada por Aristófánes ou as lamúrias do jovem Werther de Goethe, ou os prazeres secretos do banquete de Trimalquião em Petrônio, a queda de Ícaro e tudo que conseguisse achar sobre misticismo, incluindo coisas que nunca sonhei achar numa biblioteca pública, como Eliphas Levi, Paracelso, Nicolas Flamel, Stanislas de Guaita, Fulcanelli e Papus. 

Bom mesmo era encher os pulmões de fumaça caminhando na linha do trem e logo quando a lombra batia, eu estava dentro de Caetés ou Vidas Secas, com o próprio Mestre Graça pedindo pra lhe passar a bola sentadinho na estação. Minha mãe dizia que eu poderia ser um grande médico ou advogado e eu sempre rebatia dizendo que poderia ser um ótimo coveiro ou gari, a vida sempre ia dar no mesmo, todos os caminhos levam à morte, ganha mais quem se perder melhor. Só o que importava no mundo era que eu precisava de conhecimentos capazes de abrir os lábios da Sabedoria em busca do verdadeiro Entendimento. No auge dos meus 26 anos, penso que trem cheio de rockeiros mortos vai passar pra me levar aos 27. Basta eu acender meu cigarro de palha e seguir com a mente pendurada no vapor. O celular vibra, abro uma SMS de número desconhecido “A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece...”. Devo ter assinado algum canal de autoajuda bêbado.

Dinheiro é liberdade pra ir e vir, comer o lixo que quiser e até se livrar de quem você quiser. A corja rica pode estraçalhar a carcaça do mundo, todos os crimes têm absolvição com um Pix que faz centenas de milhares de cédulas virtuais caírem na conta de bons advogados. Quem sabe, um promotor ou juiz ou até um desembargador. Quiçá, a própria justiça. Esse nobre senso tão complexo, abstrato e distante para os miseráveis ignorantes que não falam latim. Homo sum humani a me nihil alienum puto. A leis são as regras de um jogo que está muito além da compreensão do povo. Todo o Império é edificado sobre mentiras e expectativas. Infelizmente, a esperança, na maioria das vezes, só nos faz morrer com uma religião que nos dá uma morte mentalmente confortável. O homem é um animal selvagem que acredita ser um animal civilizado. A massa é gado criado para pastar na ignorância e miséria. A civilização é o jogo humano faminto por vidas. Quase um Round 6...

Caminho pelas ruas desejando “Bom dia!” a todos, preciso vender pão pra ganhar o pão, sustentar os vícios e, por fim, pagar as contas. Pão gostoso e coxinha vende fácil em qualquer canto. Minha mãe é descendente italiana e sabe fazer coisas incríveis com massas, mas o que tem de boa na mão, tem de horrível e escamoso no coração, só se apaixona por biriteiro e mau caráter. Há anos, fui à única audiência de gemidos, palavrões, murros, pontapés e pedidos de tapas na cara. Um dia, ela gritou por socorro e quando entrei no quarto com a velha pistola de meu pai, o malandro a estava esganando. Dois pipocos. Um na cara e outro na goela, o marginal já foi tombando com a mão na garganta sem poder gritar nem conter os jorros de sangue que emanavam de seu cangote. Minha mãe chorava copiosamente enquanto olhava o sangue no chão esperando o cadáver parar de dar seus últimos espasmos e eu liguei a vitrola pra pensar na vida, o som tocava um disco de meu finado pai, sua música preferida, a “Missa dos Escravos” de Hermeto Pascoal. O namorado de mamãe sangrava aos nossos pés puxando ar como um porco agonizante até sua via cessar. Não há maldade individual que não possa ser convertida em bondade social. Resolvermos transformar aquele corpo em dinheiro, fizemos o bom uso de suas carnes e, por um período, além de pão, vendi sabão artesanal, tortas e coxinhas. Cozido, frito ao alho e óleo ou assado na brasa, cada ser humano é um mar de possibilidades. Tripliquei minhas vendas, comprei a moto que uso para a vida de entregador. O povo adorou e o que sobrou do mancebo virou adubo para nossa horta. Minha mãe fez questão de jogar os ossos para os cachorros desnutridos que vagavam pela feira livre. “Restos de um cachorro de dentro de casa para os cachorros da rua...” ela dizia para si mesma gargalhando após um copo de cerveja assistindo Silvio Santos aos Domingos. 

Pego um jornal de 10 anos atrás, abro numa página qualquer e vejo uma propaganda de rapé “Cansado do aprisionamento psíquico numa dimensão que não privilegia seus superpoderes cognitivos? Querendo ultrapassar as barreiras da realidade? Não perca suas narinas para o lixo, use só pó de qualidade. Rapé VALIS! Vale o preço! Procure o selo de fabricação artesanal para ter certeza da procedência do seu rapé!” com a foto duma pequena lata arredondada com um índio de três olhos desenhado em traços rústicos em seu rótulo monocromático. Viro a página, homens e mulheres vendem seus corpos em anúncios picantes, pessoas vendem imóveis, procuram-se e ofertam-se empregos, tinha até serviço de matador por encomenda, tudo pode ser achado com um olhar minucioso nos classificados. Ligo o rádio, “...Não perca suas narinas para o lixo, use só pó de qualidade. Rapé VALIS! Vale o preço...” numa transmissão radiofônica. Isso foi o grande sinal que minha mente esperada pra acionar a massa corpórea rumo à inovação de hábitos e vícios. Imediatamente, fui atrás do rapé no meio da feira livre, ele seria necessário para meus ritos xamânicos de hoje. Cheguei na feira livre e tive de me perder no meio das vielas do centro, cair de duas escadas, pular sete janelas e saltar de quatro primeiros, segundos e terceiros andares até alcançar numa banquinha que vendia fumo de rolo. O vendedor era um índio gordão com cara de Jabba e várias correntes de ouro e prata no pescoço e pulsos, parecia bastante desconfiado até ser indagado. 

- Tem Valis? Questionei na lata e ele mudou sua feição, achou que minha cara de vagabundo me tornava entendido no assunto.

- Iapois, mô Parêia! Do bom e importado!

Me entregou por cento e vinte pratas uma latinha que marcava “5g”. Cinco gramas de erva moída por 120 reais. Eu era um idiota. A maioria dos viciados em produtos naturais fica idiota ou já é de nascença. A lata me lembrava daquelas velhas embalagens de Vick numa versão reduzida. 120 formas de ser idiota e eu sou todas elas. Cruzei com o dono da funerária na porta de seu empreendimento. Ele estava indignado porque alguém tentou comprar um caixão para si mesmo. Para ele, só a família do morto poderia resolver isso, quem se antecipava assim tinha um parafuso solto na caixola.  Eu falei que se escrevêssemos a vida da maioria das pessoas, elas seriam obras inspiradas em Nelson Rodrigues. Ele ficou calado e se afastou. Pela apatia, ele pouco se interessava pelo anjo pornográfico.

Sentei na parte do açude que estava com sua reforma paralisada há mais de um ano. O prefeito decidiu construir uma nova orla para as pessoas buscarem saúde em caminhadas, crianças possam brincar livres e contentes, velhinhos vislumbrem de cenas panorâmicas sentados em bancos de concreto e “cigarristas” possam ter espaços reservados para sua paz e lazer. No entanto, escapou da prefeitura que a região era protegida pelo IBAMA e tudo acabou virando um pântano imundo de aparência putrefata recheado de jacarés famintos, peixes agonizantes, zumbis, monstros de lama e anacondas. Tudo bem disfarçado por uma mata aquática e terrestre que cobria tudo como uma belíssima grama digna do Éden. Quem no chão do Paraíso pisasse, desceria ao Inferno para nunca mais voltar. A natureza selvagem superando a civilização humana era sublime de se apreciar, ainda mais provando Valis. Era a hora e a vez de fazê-lo valer seu preço.... 

{...}

Espiei o ambiente ao redor e saquei que não vinha ninguém. Cigarristas sofrem de um medo paranoide crônico de medo de brotar uma viatura da quarta dimensão exatamente na hora em que acendem sua paz e começam a cuspir fumaça. Servi uma carreira de rapé em cima do celular, separei bem uma formosa tirinha do misterioso fumo moído. Enrolei uma nota de duzentas pratas até ela virar um perfeito cilindro de diâmetro totalmente compatível com minhas narinas. A lata no rótulo tinha o tal desenho de um índio que, transferido telepaticamente para uma máquina de xerox, era mais ou menos assim:

Cheirei toda a carreira de rapé de uma só vez em menos de um segundo, tão veloz quanto uma bala. O tiro perfeito. Senti imediatamente uma dor cruzar meu cérebro da testa até a nuca, como se um raio fosse partir meu crânio ao meio. De repente, percebi que não conseguia mais me mover, estava em completa inércia deitado na beira do açude. Um total relaxamento me tomou e fechei os olhos. Meu corpo parecia completamente anestesiado, acho que me minha pressão e batimentos baixaram até o limite para a manutenção da vida. Em poucos segundos, mesmo que eu abrisse os olhos, eu não via nada. Tudo  ao meu redor era uma massa turva e escura...

{...}

Despertei minha consciência como um botão que liga um computador: uns 30 segundos com a tela preta até eu me dar conta que estava vivo através da constatação uma respiração lenta em meu peito, mas não tinha nenhum controle sobre meu corpo. Eu me movimentava de um lado para o outro, olhava tudo ao meu redor vivendo como um telespectador dentro de outro corpo, um prisioneiro mental de um indivíduo totalmente alheio a minha existência. Até parecia a visão dos super-heróis multicoloridos que, na hora do aperto, entram em algum robô gigante ou o estranho entretenimento das pessoas que querem ser John Malkovich. Eu era um velho gordo e careca. Óculos de metal dourado com lentes grossas. Paletó caro risca de giz com suspensórios ridículos. Pela visão no espelho até o chão, diria que tenho 1,75m. Ele - ou nós - chamou um motorista pelo aplicativo. 

Em menos de uma hora, eu estava diante de um público que bateu palmas para minha presença, havia somente uma mesinha com cadeira de madeira maciça. Um texto estava em cima da mesa, tudo dividido numas 10 páginas. Após um “Boa noite! Gostaria que todos vocês apodrecessem no inferno...”, uma salva de palmas misturada a risadas e gritos tomou o lugar. A mistura das palmas das mãos em choque com as risadas  e silvos se fundiu num chiado absurdo dentro da minha própria cabeça. Parecia que eu tinha um rádio desintonizado dentro de mim. Meu hospedeiro parecia não se dar conta do ruído quase equiparado a sua própria voz. Era uma barulheira infernal que parecia as linhas de produção de mil fábricas produzindo ruídos e guinchos metálicos cada vez mais estridentes. Senti a certeza de aquilo me deixaria surdo pra sempre. 

Subitamente, o barulho foi amenizado para o que parecia uma estação de notícias em um idioma que não desvendei, mas apostaria ser russo pela pronúncia do “r”. Agora, eu ouvia o dono do corpo no mundo externo e uma voz falando um idioma estranho em minha cabeça. Era como assistir televisão com um rádio ligado no mesmo volume da TV. Passei a prestar atenção à língua mater...

“Por que tantas noites em claro? É o que pergunto ao mar, este nobre companheiro tão simétrico em suas irradiações ondulares que me fulminam com sua paz e equilíbrio num mundo onde só enxergo o desespero e a tristeza nas expressões arquitetônicas do concreto armado, tijolos-sementes plantados e multiplicados em prédios que se espalham pela costa. Milhares de milhões de coqueiros mortos e desabrigados, o bioma marinho sangrado pela cultura humana criou este belíssimo império de felicidade, materialismo, dor, angústia, trabalho, família e espírito; este último padece de um lento, mas eficiente, ato de deglutição pela tecnologia e capital...”

Em paralelo, como se percebesse a perda da minha atenção, minha sintonia mudou para um chiado brando durante uns 10 segundos e, paulatinamente, uma voz dentro da minha cabeça começou a lançar palavras que eu também entendia.

“... uma Mente existe; mas sob ela dois princípios se combatem... A Mente deixa entrar a luz, e depois as trevas; em interação; assim o tempo é gerado. Ao final, a Mente confere a vitória à luz; o tempo cessa e a Mente está completa....”

O chiado recomeçou. A abandonei minha cabeça e voltei minha atenção ao discurso...

“Eis o mar, meu quase único amigo, não fossem os cigarros e a garrafa de vinho. Daqui a três dias será Ano Novo e eu sempre apegado aos velhos tempos sem nunca conseguir dizer adeus. Não que o presente deixasse de ser um tesouro e o futuro fosse prisioneiro de uma expectativa somente controlável por tarja preta, mas o passado carregava algo especial nos fatos, pois tínhamos a certeza de que, por uma fração de segundo, tudo foi concreto... “

A desintonia cessa e uma voz chapada prossegue em minha cabeça “A matéria é plástica em face da Mente... Apolônio de Tiana, escrevendo como Hermes Trismegisto, disse: O que está acima, é como está abaixo... O universo é um holograma, o que você entende por realidade é um caixa de papelão...”

Rádio mental, off. Volta discurso:

“As madrugadas dos trópicos eram isso para quem estava diante do mar, mas qualquer urro solitário na madrugada rebateria o ruído com o eco do que se passou pelo dia no centro da cidade e você ouviria o canto de um músico cego, convites para almoços baratos, promoções berradas nos mais variados estilos com o retinir dos sinos das igrejas misturado aos gritos de ambulantes cobertos de acessórios para celulares. Dá pra imaginar que somente o centro das cidades consegue emitir um ruído autêntico capaz de se materializar na forma de civilização, todos agindo numa sincronia inconsciente, como numa peça de teatro onde são público e atores, com toda a encenação dando certo sem nunca ter sido ensaiada antes. A vida em sociedade tem algum tipo de ritmo frenético contido e desviado para a manutenção social, mantendo todos ligados em ganhar “dindin-tutu”, PIX ou criptomoedas até as baterias acabarem no sublime encontro com suas camas...”

E o tédio das falas de meu títere tropicalista me levava de volta a minha voz interior...

“A maioria dos seres humanos são servos de uma alta cúpula composta pelos descendentes de Ikhnaton, a raça de três olhos que, em segredo, existe conosco. Os alquimistas herméticos conheciam a raça secreta dos invasores de três olhos, mas, apesar de seus esforços, não conseguiram entrar em contato com eles... O Império nunca terminou!”

                                                                                 [...]

Queria um café com pouco açúcar, mas só tenho vozes. Um rádio dentro e outro fora da cabeça. Ouço o externo:

As paixões próximas a linha do Equador contêm a beleza inversa dos dias: o sexo começava nos hotéis vagabundos do centro até avistarmos moradores de rua fornicando deliciosamente nas calçadas, usuários de química pesada perdidos em paixões apartamentadas, garotas de programa e travestis que compartilhando os mesmos pais de família, ébrios dirigindo perdidos na noite, policiais zelando e garantindo a inércia; figuras diversas, cada uma com seu charme e função como habitante das madrugadas. A parte da cidade que dorme cedo perde um espetáculo sublime e desafiador que só pode ser apreciado por quem molha os pés na água salgada às 3h20min da madrugada: o doce canto das sereias tropicais. 

Retorno ao meu interior:

“Ele se replica — não por intermédio da informação ou em informação, mas como informação. O plasmado pode cruzar com um humano, criando o que chamo de homoplasmado. Isso anexa o humano mortal permanentemente ao plasmado. Conhecemos isso como o "nascimento do alto", ou o "nascimento do Espírito". Ele foi iniciado por Cristo, mas o Império destruiu todos os homoplasmados antes que eles pudessem se replicar. Na forma de semente adormecida, o plasmado dormiu na biblioteca enterrada de códices em Chenoboskion até 1945 E.C.”

Sinto um formigamento no pé direito. Mexo ele e meu hospedeiro também se movimenta. A realidade ao meu redor começou a se apagar. A viagem iniciava seu fim... 

No horizonte, qualquer um que molhar os pés neste horário poderá fechar os olhos, respirar fundo e ter sua mente deliciosamente controlada por Pisinoe, quem sabe ser levado pela doce e molhada sonoridade de Ligeia ou enfeitiçado pelo canto fogoso de Thelxiepia. Um beijo de uma musa na madrugada é tudo que se pode querer para uma morte pacífica. Numa hora destas, como num fim de balada, qualquer beijo serviria. Tudo o que contaria neste ato tão simbólico seria um rosto a ser acariciado com cabelos ao vento, faces se aproximando em câmera lenta até os lábios se tocarem e a angulação da face alheia ganhar outro formato, o de um monstro marinho prestes a devorar sua língua.... Como informação viva, o plasmado viaja pelo nervo óptico de um humano até o corpo pineal. Ele utiliza o cérebro humano como um hospedeiro fêmea no qual se replica em sua forma ativa. Esta é uma simbiose interespécie. Os alquimistas herméticos sabiam disso em teoria a partir de textos antigos, mas não conseguiam duplicar isso, pois não conseguiam localizar o plasmado enterrado adormecido. Giordano Bruno suspeitou que o plasmado havia sido destruído pelo Império; por suspeitar isso ele foi queimado. O Império nunca terminou..."

[...}

O lado selvagem da cidade aflora pelas ruas da madrugada montado no corcel fantasma da violência. Ele sempre assombra o horário em que os trabalhadores do século passado dormem, outrossim, no mundo pós-pandemia, profissionais acoplados a seus computadores levam uma vida secreta em escritórios montados em seus próprios lares, viver e morrer trancado em casa nunca foi tão fácil. Toda uma vida noturna está acontecendo em rede. A internet das coisas, homens e sentimentos dominou tudo: uns vivem perdidos de tanto trabalho, outros preferem a calmaria da madrugada e, por isso... Caímos num erro intelectual: o de assumir o mundo fenomênico como sendo real. Somos moralmente inocentes. É o Império, em suas variadas poliformas disfarçadas, que nos diz que pecamos. O mundo fenomênico não existe; ele é uma hipóstase das informações processadas pela Mente. Nós hipostasiamos informação em objetos. O rearranjo de objetos é mudança no conteúdo da informação; a mensagem mudou...

No final do expediente, todos os operários se encontram e ninguém é ninguém e/ou todos são uma só massa para circular nos ônibus de volta ao lar ou são divididos em grupos de quatro pessoas para virarem consumidores de cervejas artesanais, balas, chocolates e refrigerantes – uma boa parte levada do estoque da cozinha - rodando em ritmo de celebração em carros de luxo convocados por aplicativos. Uberização, “bikerização”, morte do “táxismo” e carroças de burro. Um mundo contemporâneo dominado por mentes jurássicas. E assim era consumada a agitação de quem precisava se movimentar para se manter vivo: pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs, todos guardando na volta para casa o direito de ter breves momentos de confraternização proletária num brinde às 3h:45min da madrugada, enquanto na Parte Alta da Cidade Sereia, um bairro fantasma apodrece e afunda no chão, como se a Mãe Terra tivesse fome ou quisesse vingança. Suas vidas e histórias afundam no que parecem cenas de um apocalipse zumbi, mas é só a ambição inconsequente de uma companhia irresponsável qualquer.

“A Mente não está falando conosco, mas por intermédio de nós. Sua narrativa passa através de nós e sua tristeza nos infunde de modo irracional. Como Platão discerniu, existe um vestígio de irracionalidade na Alma do Mundo...”

Sinto as pernas formigarem, começo a balança-las e meu falante externo mimetiza o hábito. Sim, tais gestos o tornam meio ridículo para seus ouvintes. Alguns cantos de pássaros começam a se distinguir das risadas e palmas, a plateia fica cada vez mais apagada, o barulho da água começa a fluir...

A vida humana contagia cada palmo de terra concretada e todos são levados a empregos entediantes, supermercados cheios, lanchonetes inimigas do coração, restaurantes caros, bons bares raros e todo mundo largado de volta aos seus respectivos lares, apenas atraídos por uma força motriz absoluta, um sopro divino que os faz sonhar e abrir os olhos no dia seguinte só para berrar ao mundo que se vai à luta para praticar “le parkour” com todos os obstáculos impostos pela civilização. O lance é ser feliz enquanto dá tempo, pois há um relógio contra cada um de nós fazendo um tic-tac nervosíssimo no pulso de uma caveira com manto preto segurando uma foice, vamos nos cobrir de “carpe diem” enquanto o momento está ao nosso alcance... Então, eu digo isto: nós nos tornamos idiotas. Alguma coisa aconteceu com nossa inteligência. Meu raciocínio é o seguinte: o arranjo de partes do Cérebro é uma linguagem. Nós somos partes do Cérebro; logo, somos linguagem. Por que, então, não sabemos disso? Não sabemos sequer o que somos, quanto mais o que é a realidade exterior da qual somos partes. A origem da palavra "idiota" é a palavra "particular". Cada um de nós se tornou particular, e não compartilha mais o pensamento comum do Cérebro, a não ser em um nível subliminar. Assim, nossa vida e objetivo reais são conduzidos abaixo de nosso limiar de consciência.

Mexo os braços e sou imitado pelo corpo que, aos poucos, deixo de habitar. Volto às minhas origens, cá estou de volta para minha caixa de papelão após minha primeira viagem de rapé Valis. A plateia faz cara de desgosto...

Devemos homenagear as tardes tropicais contemplando o adeus do grande astro no horizonte. Do emissário local, adentrando ao reino do grande e poderoso Netuno, há uma linha distinta no horizonte que permite enxergar a morte do deus Sol com cores que beiram a psicodelia, há tanto brilho e força num entardecer que somos obrigados a implorar pela repetição da mesma cena panorâmica no dia seguinte. Podemos reclamar e rogar mil pragas na vida, mas sempre queremos mais um dia, mais uma hora ou minuto porque, ao sabermos a contagem final dos instantes, descobrimos que tudo na vida era tempo de amar alguém, viver loucuras, contemplar sincronia das ações no decorrer do tempo, enquanto apreciávamos diariamente o pôr do Sol.

A visão do açude diante de mim era cada vez mais nítida. Mesmo lugar de sempre. Um chiado começa a sujar a voz interna:

“O Império é a instituição, a codificação, da loucura; ele é insano e impõe sua insanidade a nós pela violência, já que sua natureza é violenta. Combater o Império é ser infectado por sua loucura. Isso é um paradoxo; quem quer que derrote um segmento do Império se torna o Império; ele se prolifera como um vírus, impondo sua forma sobre seus inimigos. Logo, ele se torna seus inimigos...”

Fim da voz mental e o timbre grave de meu palestrante vai desaparecendo por completo junto da imagem de sua plateia que acaba de se tornar novamente o meu velho pântano borbulhante.

As primeiras luminosidades começam a despontar no horizonte com o anúncio de um dia para ser vivido, sofrido e satisfeito. Retorno ao apartamento com a sensação de dever cumprido, não me permito mais ter consciência e acabo desfalecendo na cama...

Ponto terminal da viagem. Volto a vida pacata de Cordeirópolis e seus carros passando distantes de onde estou na beira do açude. Minha camisa está empapada de suor e só se passaram pouco mais de 10 minutos.

[...]

Ao meu lado, havia um par de botas que parecia ser de legítimo couro de jacaré. Tirei as chinelas e, assim que calcei a segunda peça do par, eu me senti atraído para dentro do açude. Enfiei as pernas até o meio das canelas pra não molhar a bermuda e tirei a lata de Rapé Valis do bolso. Enchi o dedo indicador de rapé e enfiei na narina esquerda dando a maior fungada da minha vida. O raio novamente partiu meu cérebro em dois e rachou a realidade ao meio. O sangue começou a fluir na água ao meu redor. De repente, senti uma abocanhada em cada perna. Não vi as cabeças, mas percebi suas caldas reptilianas. Dois jacarés me levaram para o fundo do onisciente coletivo. Coisas que só Cordeirópolis tem...

Textos em negrito e itálico são adaptados ou enxertados da obra “Tractatus: Cryptica Scriptura”, anexo do livro “VALIS” (Philip K. Dick, 1981).