Marlon Silva

Marlon Silva

Arapiraca, AL (1972)

BIO

Escritor e professor. Pós-graduado em Letras, ensina língua portuguesa e literatura brasileira em Teotônio Vilela. Seu quarto livro de poesia, Vil e tal, foi financiado com recursos do Programa de incentivo à cultura literária da Editora Graciliano Ramos (2014). É cofundador do Paiol, projeto cultural e audiovisual independente criado com o objetivo de registrar e promover a arte local.

ESCRITOS

POESIA

Frenteverso (2003); 

Nu rol da pele (2007); 

Lá do cá(r)osso (2011); 

Vil e tal (2014); 

Alguns nós (2016); 

Ocre barro (2017); 

Monossílabo (2019); 

Das coisas que Gonçalves não viu (2022).

A COISA

A COISA está ali e também a “pessoa”

Inteira, a COISA na “pessoa” ali ressoa

Estando a COISA ali é feito está além

Pela COISA a “pessoa” a tudo vive aquém

A casa, o corpo, a mente, os instantes...

São o ali onde a COISA se onipresenta

Jogos, apostas, streamings: afãs itinerantes

Em que a pessoa, enredada, de si se ausenta

Ali, medonha, a COISA, assim, invocando o terço

Manhããã, taaarde, noooite, madrugaaadaaa

A COISA, na coisa da pessoa encostada

Ali, naquele lugar, a COISA escandindo o verso

Assim, a memória, o sonho, a vida, ali, fenecem   

No lar da ‘pessoa-coisa’, somente a COISA – amém

Atemático

Atemático, tem existido em suspensão, feito os excluídos tremas. Em nenhuma circunstância é capaz de pôr os pés no solo e formar identitárias pegadas como quem deseja dizer de si com a firmeza dos advérbios de modo, quanto mais particularizar-se por uma expressão que seja. ele não se desajunta, para que, com isso, tenha o ganho do espicho da matéria que o cabe com o acréscimo do hífen; como sendo aquém, poder-se-ia querer além-mar-se? Seu modo constitutivo, que é quase somente sílaba, é do modelo daquilo que não se elastica, ao contrário do dilatado couro lexical do vocábulo pau que cresce trissilabicamente quando se, por motivos da consoante de ligação junto ao sufixo, metamorfoseia-se em palavra de contundente semântica, possível de arrancar a cedilha do vocábulo cabeça. ele, coisa parecida com (l)esma, apenas fi(n)ca, igualmente aos verbos que indicam estado, que, por uma implicância letárgica, omitem-se do movimento que rege o deslocamento da roda, impulsiona a vela do barco, assanha o cabelo do transeunte, faz levantar a palavra derivada para desferir o golpe fatal na sintaxe formalística. ele é uma catacrese, quase como alguém em quermesse: sabe-se à cabeça de fósforo riscada deixada sobre a areia em frente a eira da pedra, essa coisa que é dura, resistente mais que se ele quisesse ganhar-lhe em pé de igualdade e batesse de peito dele de frente com peito dela... de lascas em lascas de peles de letras e sílabas das palavras genericamente antônimas em atrito, facilzinho o pé lascaria, achatando a g(ele)ia, que é a forma dele, com a agressividade da síbala dra. ele degringola-se e sua língua trava, porque falta-lhe, em sua boca, a força tônica da sílaba destacável; por isso não pode, mesmo que, por algum instante, tenha-lhe ocorrido a pretensão de ser ala além do limite estreito que vive circunscrito, encarar o coice halterofilizado do vocábulo pedra que, paradoxalmente, por conveniência de grau e de pertencimento familiar, quando torna-se palavra polissílaba, rebaixa-se ao mesmo nível em que se afigura: ele.

Regra canônica

Sangue do osso

Do dente canino

Preso no pedaço

Do eco da seca

Por inteiro, a fome

Mata, aos poucos, 

Todos os dentes

Que ousam querer

Morder a língua

Única coisa que cheira

À carne nesse ermo

Que tem sido a boca vazia

Mas o menino e a menina

E sua mãe e sua vó,

Feitos molambos de gente

De tão cheios de nós e dós.