FASE I: LIVRARIAS LIGADAS A TIPOGRAFIAS

O período de 1872 ao final de 1960 marca a instalação e consolidação do segmento de livrarias no estado. O empreendimento pioneiro foi, possivelmente, a Livraria Francino (1872), fundada em Maceió por Francino Tavares da Costa Filho. As livrarias desta fase concentravam-se na capital e estavam associadas, em sua maioria, às atividades comerciais das tipografias e litografias.

A escolha da capital se justificava pelas facilidades no trânsito de mercadorias. O embarcadouro de Jaraguá, transformado em porto, em 1940, servia de referência para a chegada das novidades literárias, enviadas por editoras e livrarias do Rio de Janeiro, então capital federal. 

As publicações brasileiras e europeias encomendadas por meio de catálogos desembarcavam dos navios a vapor e chegavam a terra firme com a ajuda de pequenos barcos, assim como eram trazidas de transporte aéreo. Em seguida os produtos escoavam pelas agências dos Correios e Telégrafos e pela malha viária dos bondes, ônibus e trens que trafegavam pelo Centro e Jaraguá. 

Várias livrarias estavam situadas nos trechos da Rua do Comércio, Rua Boa Vista e Cincinato Pinto: Livraria Moderna, de propriedade de Candido C.; Livraria Santos, de Augusto Vaz da Silva Filho; Livraria Fonseca, de Manoel Gomes da Fonseca; Livraria Cândido, de Antonio Cândido; Livraria José de Alencar, de Enéas de Oliveira Pontes; Casa Ramalho, de Manoel Joaquim Ramalho; Livraria Vilas-Boas & Cia, entre outras. Em Jaraguá, a Livraria Machado, dirigida por Luiz Lavènere (fotomontagem) comercializava suas próprias edições de livros e cartões postais.

A região central da capital vivia sob uma intensa agitação cultural com a movimentação de intelectuais, artistas, profissionais autônomos, funcionários públicos, trabalhadores e trabalhadoras do comércio. Por suas ruas, becos e praças, pessoas iam e vinham a pé, a cavalo ou de bonde, a caminho de lojas, consultórios médicos e sedes de jornais e sindicatos. Os destinos procurados eram também a ida a um café, cinema e teatro, e os encontros sociais nas agremiações literárias e instituições culturais.

O Ponto Central, inaugurado em 1931 na esquina da Rua do Comércio com a Livramento, era um dos espaços concorridos. O famoso café reunia vários amigos escritores, alguns deles pertencentes à chamada Roda de Maceió, entre os quais estavam José Lins do Rego, Jorge de Lima, Carlos Paurílio, Raul Lima, Alberto Passos Guimarães, Aurélio Buarque de Holanda, Hebel Quintela, Valdemar Cavalcanti, Graciliano Ramos, Aloísio Branco, Rachel de Queiroz e seu marido, o poeta José Auto (os seis últimos da fotomontagem). 

As camadas sociais urbanas, compostas pela burguesia industrial, operariado e classe média, cada vez mais cresciam e ocupavam os espaços de decisão política e econômica. Os autores e as autoras de poesia, prosa e teatro, a maioria da classe média, formavam o segmento de público preferencial das livrarias. Ao circularem pela região central da capital, eram inúmeras as chances de serem atraídos por seus letreiros e vitrines. 

Com a atuação desses espaços culturais, o livro passa a integrar e modificar o cotidiano de uma sociedade extremamente desigual e com pouco acesso à educação formal.  

Um dos principais méritos das livrarias desse período foi o de promover a circulação de obras com temáticas diversificadas. Em vez da predominância, como foi até o século XVIII, de textos religiosos e relatórios administrativos de governo, as obras comercializadas de 1872 a 1960 eram elaboradas numa diversidade de influências e gêneros textuais. 

Os conteúdos iam de um extremo a outro: do Academicismo científico e político, de tradição e métodos conservadores no tratamento dos temas, ao Modernismo, uma estética aberta à quebra de regras na escrita literária e com uma visão crítica sobre questões e problemas do seu tempo. 

De igual importância foi a promoção pelas livrarias de eventos culturais. A realização de saraus, debates, lançamentos e feiras de livros ajudou a construir laços de sociabilidade entre artistas, intelectuais, escritores e escritoras. Esses encontros promoveram a circulação de uma multiplicidade de formas de pensar. 

FONTE: Jornais disponíveis na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional: bndigital.bn.gov.br.