Leo Pimentel

Leo Pimentel

Recife, PE (1972)

BIO

Escritor, roteirista, dramaturgo e administrador. Nascido em Recife, Leo Pimentel mora em Maceió desde 1988. Dos onze livros de ficção publicados, três deles foram adotados como paradidáticos em escolas do Nordeste, e o livro em Braille, escolhido por um projeto de universidades federais brasileiras e distribuído para bibliotecas públicas e instituições voltadas a pessoas com deficiência visual. Os livros Cobaias, Constelação de Capricórnio, Desígnios e Iroko estão sendo adaptados para projetos de cinema e TV. Realizou os curtas metragens Calibre.22 pelas produtoras Mundaú Filmes e Cana Filmes, selecionado para festivais nacionais/internacionais, e Propósito-Diário da Pandemia pela Cana Filmes. Em 2020 foi premiado na categoria teatro infantil com a peça Rafael e a Baleia de Nuvem no 5º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, em Recife. Escreveu os roteiros para longa metragem: João e o Gigante, da Produtora TB Produções juntamente com a roteirista Flávia Guimarães; Desígnios, Rafael e a Baleia, Mamulengos e A estrada e o santo pela Produtora Na Laje Filmes. Criou os projetos de série: Serial, Imunes e A ordem, e também o projeto de longa metragem Domadora de urso com a colaboração das diretoras Cláudia Castro e Tande Bressane. Foi roteirista do projeto de curta metragem Iroko, com contexto histórico de eventos relacionados ao Quilombo dos Palmares e aos escravizados, uma produção desenvolvida em Alagoas. Realiza, em parceria com uma produtora em Pernambuco, o projeto de média metragem, Os Donzelos (a comédia) e o longa-metragem O Caveira.

ESCRITOS

CONTO

Pegadas de um anjo (1993); 

O pintor de folhas (1999); 

O silêncio da alma (2001); 

O silêncio da alma – em braille (2005); 

Iroko (2021). 

LIVRO PARA INFÂNCIA

Os cinco pássaros (1995); 

O sequestro de Chiquita (1998); 

O reino de pedra (2018). 

ROMANCE

Desígnios (2015). 

ROMANCE POLICIAL

Constelação de Capricórnio (2003); 

Cobaias (2005).

Trecho do Livro DESÍGNIOS

Povoado de Millah

Início de Noite

– POVO DE MILLAH! Em nome de Deus e da Igreja, pelas honras que me foram concedidas, entrego esta bruxa ao fogo infinito do inferno e com ela todos os seus pecados perante o mundo dos homens – gritava ofegante um homem com as insígnias da Igreja bordadas em sua capa vermelha e preta.

As pessoas aglomeradas na praça olhavam assustadas os guardas da Igreja que estavam prestes a queimar na fogueira uma jovem que diziam ser bruxa. O homem ofegante e de rosto frio, chamava-se Franco Zebel.

Aos poucos, as tochas eram acesas e novamente Zebel levantou sua voz.

– Este é o fim para todos aqueles que desafiam Deus e a Igreja e eu não hesitarei, nem por um segundo, em caçar estas pessoas até o fim do mundo se precisar.

Nos olhos da jovem, de nome Vandora, apenas via-se tristeza. Suas mãos sangravam por causa das cordas que as amarravam no tronco de madeira, levantado no centro

da praça. As marcas da violência estavam por todo o seu corpo, algo cruel e desumano.

Como todos aqueles que eram tachados de bruxos pela Igreja, Vandora estava face a face com a morte. Por conhecer a magia e usá-la em benefício das pessoas, sem se

importar se estava indo de encontro às determinações da Igreja, ela foi denunciada e presa. Assim, na noite passada, enquanto dormia, os guardas da Igreja invadiram sua

casa, tiraram-na à força e levaram-na ao Bispo. Ela, então, assumindo conhecer a magia e praticá-la, recebeu a morte como punição.

Quando as tochas de fogo levantadas pelos guardas da Igreja iluminaram o céu, o grito rouco de Zebel estremeceu o semblante:

– MORTE ÀS BRUXAS!

Vandora fechou os olhos.

Os guardas imediatamente começaram a colocar fogonos pedaços de madeira aos pés de Vandora. Neste momento, alguém inesperado apareceu.

– PAREM – gritou – Ela não pode morrer por apenas ir de encontro ao que vocês determinam.

Zebel voltou-se para a voz e com uma expressão de raiva, espantou-se.

– Você?

– Eu venho em nome de Deus, Zebel, e não permitirei que você continue imperando sua maldade.

– Você tem muita coragem, Padre Antoniel. Quem você pensa que é para interceder no nosso trabalho?

– Eu sou um mensageiro da palavra de Deus e...

– CALE-SE AGORA! VOCÊ NÃO É NADA! – interrompeu Zebel – Você não passa de mais um pecador imundo. Pensa que não sabemos do seu amor por Vandora e seus encontros secretos? Foi através de você que conseguimos agarrar a bruxa e era só uma questão de tempo para prendermos você também.

As pessoas na praça que observavam tudo em silêncio, pareciam não acreditar.

– Você não entenderia, Zebel. O nosso amor é o sentimento mais puro deste mundo. Deus é testemunha que  não o traí.

Zebel deu um sorriso sarcástico.

– Padre Antoniel, não deve falar em Deus em vão, principalmente por motivos não corretos.

Neste momento o rosto de Zebel mudou. Uma expressão séria tomava conta dele, ao mesmo tempo em que caminhava em direção ao padre.

– Você não deveria ter vindo aqui.

Zebel parou em sua frente e, com a mão direita, segurou- o forte por trás da cabeça, apertou-lhe o pescoço, olhou-o nos olhos e disse:

– Verei você morrer, igual à sua amada bruxa.

Antoniel nada disse e Zebel, soltando o pescoço dele, olhou para os guardas e gritou:

– Prendam este pecador e o amarrem com correntes.  Quero que veja a morte da bruxa.

Padre Antoniel sacou a espada que trazia escondida por baixo da capa e a levantou para os guardas. Correu em direção a eles, mas foi surpreendido por Franco Zebel.

Em pouco tempo foi dominado, esmurrado e acorrentado.

Vandora trazia em seu rosto uma expressão de tristeza profunda, pois naquele momento não podia fazer nada. 

As pessoas ainda estavam espantadas com tudo que viam e quando os guardas arrastaram Antoniel para o centro da praça e o jogaram próximo ao tronco de madeira,

Zebel deu seu último grito.

– POVO DE MILLAH! Isto é o que acontece com aqueles que vão de encontro as minhas determinações. Por isso, não ousem desobedecer, pois se isto acontecer,

irão me encontrar no caminho de vocês.

Zebel novamente olhou para os guardas.

– Agora, queimem a bruxa.

Quando o fogo cobriu todo o tronco de madeira e a figura de Vandora começou a desaparecer, ouviram-se os gritos de desespero do Padre Antoniel. Aos poucos as lágrimas escorriam suavemente pelo rosto das pessoas presentes,

caladas e sufocadas pelo medo.

Numa última constatação de uma vida, ouviu-se ecoar a voz de Vandora, como se ela viesse das nuvens.

– Antoniel, meu amor, não coloque o desespero à frente de seus objetivos e sentimentos, eu estarei sempre com você. Eu o procurarei por todo universo. Vasculharei as

inúmeras existências que venham a mim, o buscarei em cada sentimento presente, pois poderemos estar distante fisicamente e até fugir a lembrança, mas nunca nos separaremos. As nossas almas estão entrelaçadas pela eternidade e por isso, em breve, em qualquer tempo, nos encontraremos novamente.

Vandora se contorcia de dor.

– ZEBEL! – gritou ela – deixo-lhe o meu perdão, pois percorrerá a eternidade em busca de uma luz para iluminar a escuridão causada pelo mal que fizeste.

O fogo tomou todo o corpo de Vandora, que aos poucos sumia na escuridão da noite, até morrer definitivamente. 

Padre Antoniel caído, sentia-se culpado e por um momento pensou que fosse castigo. Depois, foi arrastado por toda a cidade e humilhado publicamente na frente das pessoas que observavam aquelas atitudes covardes em silêncio profundo.

Franco Zebel seguia em seu cavalo com um semblante tranqüilo e satisfeito. Tinha realizado mais uma de suas missões e assim continuou até o fim de seus dias. Sobre a

vida dele, apenas podemos dizer que sempre foi fiel aos seus princípios.

Padre Antoniel foi expulso da Igreja e ficou numa prisão fria e escura. Ele sofreu muito e nunca se conformou em ter sido humilhado por pessoas que se valiam das palavras

de Deus para justificar atitudes desumanas e covardes.

Morreu doente dois anos após ter ido para prisão.