Kika Sena

Kika Sena

Maceió, AL (1994)

BIO

Atriz, diretora teatral, arte-educadora, poeta e performer. Graduou-se em Artes Cênicas, na Universidade de Brasília, e fez mestrado na área de Teoria e Prática das Artes Cênicas, na Universal Federal do Acre. É pesquisadora de gênero, sexualidade, raça e classe. Desde 2015, desenvolve estudos relacionados à voz e palavra em performance com cunho político referente ao corpo da mulher trans e travesti na cena teatral e social brasileira. Autora de livros publicados por editoras e de maneira independente. Em 2019, publicou o zine Subterrânea e fez a direção do espetáculo Transmitologia (DF). No ano seguinte, conduziu DesQuite (AC), numa parceria com As Aguadeiras. Mais recentemente, atuou em Ovelha Dolly (AC), dirigido por Sarah Bicha. No cinema, estreou como protagonista do premiado longa-metragem Paloma (2022), dirigido por Marcelo Gomes.

ESCRITOS

POESIA

Marítima ( 2016); 

Periférica (2017); 

Subterrânea (2019).

MEMÓRIA COMO LUGAR DE ORIGEM

Como se não faltasse ar,

Respire. 

Ainda existe ar aqui dentro e também na superfície. 

Feche os olhos e veja o mar na sua frente:

Mergulhe no mar.

Imagine a distância que era correr contra o tempo, avanço, avançada, evoluída. 

Como se desse para correr contra o tempo.

Como se centro fosse lugar primeiro. Não. Lugar primeiro é o mar, gente. A margem, que é o começo e o fim de tudo. 

A beira

O que transborda.

Mergulhe de novo.

É preciso voltar no tempo: memória:

Paisagem em movimento que carrega respingos do que sempre foi ancestralidade.

Antes de nascer já era e não tinha como ser diferente. 

O ar que corre no pulmão de uma preta é prova viva: teimosia.  

E todos os detalhes do que existe: o sangue, a pele, os poros, o suor, as palavras também são. 

Teimosia é onde começa a continuação da história, que se não fosse ela, ancestralidade seria qualquer coisa contada em pele branca, passada em branco, embranquecida para se comemorar o incomemorável: 

Espetacularização do sofrimento da vida preta.

E nunca seria raiz.

[respire]

Tudo começa no bê – a – bá.

Na língua materna, que de materna só tem o nome.

Tudo começa no pê – a – pá

P com A faz 

Pá.

Tri. 

A. 

Como se gente preta fosse sempre objeto de pesquisa e sujeito da exploração. E de que valem os votos, as vozes, os acordos, a nossa palavra? 

Pátria, como separação da qualidade da gente, como se sempre fosse preciso medir a melhor, a mais bonita, a mais adequada, a com maior passabilidade.

Minha avó não tinha. Minha mãe e minha tia também não, nem a outra tinha, nem a outra, nem a outra. 

Não têm.

Não existe grau de sabedoria maior que a ancestralidade. E isso reside na escuta, na escolha das ervas pra o banho, no chá, na criatividade pra se montar um prato pra janta com o mínimo.

Que criança preta de barriga cheia é fartura.

Antes do bê – a – bá era o olhar, a cara fechada, a brabeza. 

A bendita teimosia.

O choro.

Que se não fosse isso, hoje quem sabe a história não seria outra. E ainda estamos aqui: falando do básico, do básico, do básico, que pra gente sempre foi e sempre será o pão nosso de cada dia: o modo como construímos memória.

Ainda existe ar aí dentro?

 [respire].