José Valdemar de Oliveira

José Valdemar de Oliveira

Maragogi, AL (1965)

BIO

Escritor. Seus textos foram reconhecidos em vários concursos: recebeu, aos 20 anos, uma premiação literária da Pró-Reitoria de Extensão da Ufal, em 1985; foi por duas vezes premiado pela Academia Alagoana de Letras, em 1998 e 2001, e um dos 20 finalistas do Concurso de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale; conquistou a quarta e a segunda colocação em duas diferentes edições do concurso de contos da Associação Alagoana de Imprensa. Sua obra O inferno são os outros foi selecionada no edital para publicação de obras literárias, em 2013. Conquistou o 3º lugar no XII Prêmio Barueri de Literatura, na categoria conto, em 2015 e, em 2023, teve um conto selecionado para a coletânea Prêmio Off Flip 2023. Criou o projeto Atrás das janelas, no qual quatro autores de Maragogi se revezaram para escrever e publicar uma crônica diária numa página do Instagram, durante quase três meses de isolamento social, durante a pandemia da Covid-19, projeto este que virou livro.

ESCRITOS

CONTO

Vapor barato (2007); 

Domingo é dia de morrer (2017); 

Casa de Orates (2016); 

Prêmio Off Flip 2023 (2023, coletânea). 

ROMANCE

O inferno são os outros (2014); 

O sexo de Judas (2018). 

CRÔNICA

Atrás das janelas (2021).

Do conto Miss Vaga-Lume

Até parece!, exclamaria sarcasticamente algum conhecido se a visse agora, Gina Púrpura, descendo do táxi como quem desce da carruagem de abóbora. Só umas poses, cara, você retrucaria, jogo cênico, saca? – é bem a sua cara, o seu modo de aterrissar gloriosa na night. Mas você sabe: seu palácio é a sombra de uma esquina, seu baile são as orgias sodomitas, sua orquestra é o ronco dos automóveis, sua valsa é correr avenida afora beco adentro, seu vestido bordado com ouro é um top básico e uma microssaia de pelúcia, seus sapatinhos de seda e prata são uma minibota Fernando Pires, seus príncipes são sapos – e a noite, Srtª Pirilampo, com todos os seus feitiços e perigos, há muito deixou de ser criança e você não é nenhuma personagem de conto de fadas e seu hábitat natural nunca serviu de moldura para uma narrativa mágica. 

Mas o calçado tem grife de princesa contemporânea, afinal, embora o vestuário não prima pela elegância nem pelo bom gosto. Mas você não é Constanza Pascolato, não precisa segir nenhuma tendência. Indumentária, no seu caso, é só... um detalhe. Verdade que o corpo é seu material de trabalho. Mas não é cabide, você não é top model. Você vende luxúria, não roupa. Você dita o prazer, não a moda. O que importa é que é prático: facilita na hora de tirar, ou levantar, mostrando o maior atrativo: seu traseiro avantajado, onde muito mal se vê uma calcinha preta de renda minúscula quase toda entranhada no sulco das nádegas. 

E os príncipes, Gina, os príncipes da sua história à noite abandonam as afetações, viram sádicos, masoquistas e congêneres, e extravasam toda espécie de tara, latentes e muito bem dissimuladas à claridade solar. E aí só querem suas curvas, seus contornos, seus recôncavos, sua boca, sua língua, seus orifícios. Rejeitam seus beijos, seu amor, seus sentimentos. Seu corpo e suas técnicas são mais do que suficientes para uns minutos de deleite. Devidamente ressarcidos. 

Largada à própria sorte – como costuma dizer –, você ganha o calçadão, se reparando, puxando a sainha para baixo, ajeitando o top, tirando o espelhinho da bolsa, se olhando de perfil, de todos os ângulos, enfiando os dedos da mão esquerda por entre os cabelos, jogando–os para um lado e outro, guardando o espelho, colocando a bolsa no ombro direito, respirando fundo: prepara–se para desiludir os iludidos que passam pelo seu corpo sem deixar marcas – sentimentais, pelo menos (as físicas, não pode ocultar nem esquecer, e motiva sempre indagações indesejáveis, mas na primeira investida você logo corta, com seus foras ríspidos, amargos, debochados, singulares).

Você chama isso de representar. Fala que é diferente de fingir. Ninguém entende. Parece que é a única a separar os quase sinônimos. 

Valendo–se de poses ensaiadas, checadas e aprovadas perante o espelho grande do seu guarda–roupa, assume seu posto, já atraindo a atenção e/ou gula e/ou ira de rostos masculinos, jovens, tesudos, velhos, cansados, ávidos, clientes, inéditos. Reina absoluta no pedaço mais frequentado, conquistado a troco de muito tapa, peruca, batom e sangue. Prefere manter as colegas bem longe – desinibe a clientela e afasta a concorrência. Você então é a Gina Maquiavélica. 

Exibe–se com certa fúria, certa vingança. Visceral, trágica, vulcânica. Orgânica, voraz, orgástica. Exposta ao vento, ao relento, à chuva. Assim olhando, de longe, figura imponente, adorno vanguardista das avenidas de outdoors luminosos, barbie virtual infiltrada na raça humana. Escultura viva. De perto, impotente, diante dos berros dos motoristas endiabrados e cruéis, das buzinas, das sirenes, à mercê dos assovios, dos insultos, do escárnio, dos tiros – a sonoplastia da sua vida, Gina Tributo da Noite. 

São bêbados desaforados querendo agredir gratuitamente. Bater por bater. Matar por matar. Você incita seus demônios acuados, pena que não tenham consciência de tais reflexos. Jovens bem barbeados, bem vestidos, nos seus carros zero. Você inerte, nem os olha. Então necessitam violentar, porque você é a Gina Espelho da Maga Patalógica. Eles a desejam e não podem desejá–la e então a estrangulam. Você é o alvo de suas munições repressivas. 

Todos a atazanam. Quem passa, bole. Nem que seja para lhe gritar um palavrão. Pelas janelas dos carros, os mais perturbados atiram pedras, latinhas vazias de cerveja ou refrigerante, os mais violentos tomam sua bolsa, roubam–lhe o dinheiro, jogam o resto no asfalto, arrancam sua saia. E em várias madrugadas, fim de festa, uma plateia. Você de repente estrela dum espetáculo circense. Quando cai devagar. E chora baixinho. Padece. A venta batida no paralelepípedo. E sangra. Cara de mãe de santo, acha que tem, quando as lágrimas começam a derreter a máscara cosmética. A dor arrebenta a pele uniformizada, mostra as rachaduras do tempo sob as camadas (sobre camadas) de base líquida, dissolve o blush vermelho tão meticulosamente pincelado – mostrando a palidez de uma pele que se esconde do sol –, o corretivo, os dois tons vermelhos de sombra, o delineador esfumaçado no final das pálpebras – denunciando a realidade de noites, ops!, de dias maldormidos através das olheiras profundas –, borra o batom também vermelho, que, de tanto você esfregar, acaba desnudando seus lábios pequenos e ressecados. Fundindo, enfim, toda beleza facial de ar plástico, perfeitamente ajustada ao néon. Por último, você arranca os tufos de cílios, que nem parecem postiços. Ao redor, todos sempre gargalhando. Ninguém nunca se mostra solidário. Todos veem, mas ninguém socorre. Por que então não aplaudem? 

Você às vezes sai literalmente do salto, segura–os na mão, defende–se com eles. Ou corre, corre, você corre de tudo e de todos, sem ter a quem pedir socorro. No seu mundo sempre foi assim, você e os outros, nunca você mais os outros. Não há soma entre você e eles, só subtração, cujo resultado é sempre igual a um: você mesma. Desoladora matemática, Gina Epifania de Taras Diabólicas. Os outros, garota, são o inferno, revelou–nos Sartre. Ou você ainda imagina que o inferno é um lugar longínquo, incandescente, com uma figura folclórica vestindo fantasia de carnaval?