Jorge André

Jorge André

Teresina, PI (1988)

BIO

Pessoa com deficiência, poeta, produtor cultural, advogado, membro do coletivo ativista-poético Sociedade dos Poetas Por Vir desde 2011. Gosta de fluxos, confluências e conexões. Mantém vivo em si o espírito de que todo mundo pode ser poeta e poesia.

ESCRITOS

POESIA

Traços esparsos (2021); 

1492 – O encobrimento do outro

em poesia (2023); 

Há margens (2026).

Cosmogonia da dominação I

Pois bem, cheguei

 Um rei de branco, babando sangue

 que não era seu, bem melhor que não houvera,

 Secou as flores na primavera,

 Sorveu a lama do mangue.

 A cruz-de-malta, pro sacrifício,

 Conduz o povo ao seu suplício.

 Coroa de espinhos, grampeia carnes

 Sega os sonhos, os voos de aves.

 Besunta de vidas a terra nua, 

faz um salão de festas – a casa é tua,

 invade os portões do império sem sobressalto,

 Vai pra colina sorrir gigante

 da civilização subsumida diante

 do soberano de um cargo alto.

 18.01.2014

(In: 1492 – O Encobrimento do Outro em Poesia, 2023, p. 15)

Tenho vontade de vomitar tudo o que sinto

Tenho vontade de vomitar tudo o que sinto

de mau que aflige e afeta o meu peito.

Aproveito a lucidez que me dá este vinho tinto

e falo moderado minhas frases de efeito.

Passa tempo tô mau bêbado bêbado

tenho cento e vinte anos leio leio leio

veloz veloz relógio quebrado tonto tonto

estou eu vou girando o mundo minha cabeça querida

rodopia volteia vida louca

rouca rouca a voz me falha então eu

cuspo escarro tiro sarro garrafa na mão

peito aberto atira atira estou esperto

do fim acabado e isso era só um enjoo

agora golfo em convulsão tudo que sinto então

dor amor querer viver paz é bom mas não

dá mais talvez nem fosse o vinho quiçá

estou sozinho e só o pó o resto fim

largado na sarjeta dou gorjeta ao garçom

ah ele sabe viver isso é bom

o linho do meu terno tecido se rasga roto

o que era mau que bom expeli ao esgoto

e fui junto que eu era de mau gosto.

(In: Traços Esparsos, 2021, p. 104)

Cosmogonia de libertação II

Entrega racional

 Montezuma e suas crenças, seus saberes 

postos à prova diante do desconhecido 

não temia a morte, mas seu povo vencido 

por aqueles tão poderosos seres;

 Cruzavam mares em seus instrumentos divinos 

ou eram obras de criação humana?

 enquanto há dúvida cautela insana,

 cortesia desmedida para atender as visitas

 Coroavam algozes como se pudessem 

evitar a devassa de sangue escuro 

ou as pessoas preservar seu tesouro 

Sob os olhos de deuses, antes do quinto sol,

 enxergavam na oferenda uma luz, um farol 

como última saída antes do fim do dia.

(In: 1492, 2023, p. 26)

Doutrina do medo

Vivemos tempos de doutrina do medo:

e se eu não conseguir meus objetivos?

E se eu for um criminoso?

E se eu andar sozinho à noite?

E se o amor acabar?

Não há mais casas de portas abertas,

nada parece fácil de mudar.

O irmão do lado de lá te ajuda? É possível,

mas ele também anda escondido das farpas,

o mundo, vasto mundo não é rima nem solução,

Raimundos e Josés, Marias e Franciscas,

vão pro começo do dia com dedos dos pés enrugados.

Queremos dias de sorrisos de mel:

e se puder dividir meus sonhos com o mundo?

E se o mundo puder dividir-se entre todos?

E se andarmos de mãos dadas pela lua?

E se o amor se multiplicar?

Eu quero as casas de muros baixos,

nada que pareça difícil de conseguir.

(In: Traços Esparsos, 2021, p.37)