Jackeline Formiga

Jackeline Formiga

Palmeira dos Índios, AL (1974)

BIO

Advogada, escritora, poetisa e romancista. Sempre gostou de escrever e recitar versos, mas foi somente a partir de 2021 que passou a utilizar sua rede social para publicar alguns poemas. O livro Os olhos de Júlia e os cabelos de Álice livro 1: não adianta fugir foi lançado na 10ª Bienal de Alagoas e contemplado com o prêmio Mulheres que escrevem Alagoas (2024), concedido pela Biblioteca Estadual Graciliano Ramos, órgão da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult-AL). O segundo volume da trilogia foi publicado com recursos da Lei Aldir Blanc. Em julho de 2025, foi empossada na Academia Palmeirense de Letras, Ciência e Artes (Apalca), em cerimônia realizada na sua cidade natal.

ESCRITOS

ROMANCE

Os olhos de Júlia e os cabelos de Álice – livro 1: não adianta fugir (2023); 

Os olhos de Júlia e os cabelos de Álice (2024); 

Os olhos de Júlia e os cabelos de Álice: o acerto de contas.

“NÃO VIOLENTE SEU CORPO, SE ELA LHE DISSER UM NÃO”

Precisamos conversar sobre violência sexual

Pra aprender e decifrar quando o sexo é anormal

E eu vou logo desmascarar o que parece natural

O homem não consegue se conter? É instinto animal?

Quando iremos entender?

Que o homem é um ser racional

O sexo não é só pra seu prazer

Ou pura necessidade carnal

Se ele exigir você fazer

Pode crer, é violência sexual

Agora preste atenção para outra embromação

O homem é um garanhão

Precisa se satisfazer

Pois o cavalo não faz, não, sem a égua conceder

Isso é pura invenção, ele quer te convencer

De que sexo só é bom, se ele estuprar você

E tem mais, mulherada

Se lhe deixa embriaga, 

Ou se lhe deixa drogada

Sem saber o que fazer

É melhor ficar ligada 

No que agora eu vou dizer

Nada disso é de graça 

Tudo tem razão de ser

É que, desorientada 

É mais fácil você ceder

Denuncie a canalhada

Se só ele sentiu prazer

Você foi violentada

Sinto muito em te dizer

E tem mais, uma mulher desacordada

Nunca deve ser tocada

Pois ninguém inconsciente, 

Consegue fazer nada

É uma vítima inocente

Mais uma mulher estuprada

Outra coisa que não pode passar

É um homem com uma criança transar

Isso extrapola até o abominável 

É difícil suportar

É um ato execrável 

Não é sexo, não é brincar

É estupro de vulnerável

E você tem que denunciar

Agora eu vou resumir

Pra deixar bem registrado

Um não ignorado

É um corpo violentado

Uma mão atrevida

É uma mulher agredida

Um toque não aceito

É violência, não tem jeito

Não importa se ela é trans

Cis ou intersexual

Sexo bom pra uma mulher

Tem que ser consensual

Se ela diz que não lhe quer

É violência sexual

Isso vale pra você, ô garanhão!

Dizer não é um direito

Respeitar é obrigação

Não importa se no começo

Ou no meio da pegação

Não violente seu corpo

Se ela lhe disser um não

Não importa se ela é virgem

Não importa se ela é puta

Não importa se é ingênua

Ou até mulher adulta

Se ela diz que não lhe quer

Não use a força bruta

Violência sexual

É um terror a nos cercar

Uma dor maior que essa

Só se ele nos matar

Arrancar de vez a vida

Porque a alma já não está lá

Agora eu vou concluir

Mas antes eu quero falar

Não dá mais pra admitir

Nosso corpo machucar

Nós não vamos desistir

Isso tem que acabar

Denuncie, vá por mim,

Não se pode perdoar

Porque gente ruim assim

Na cadeia tem que morar.

DESDE O DIA EM QUE PARTIU, EU CARREGO VOCÊ AQUI DENTRO

Mãe, desde o dia em que partiu

Deixando, no mundo, esse grande vazio

Carrego você aqui dentro

É difícil, mas eu tento

Nunca me desesperar

Vivo na esperança que vem do verbo confiar

Confiar que um dia há de chegar 

Um belo dia em que irei te reencontrar

Ah! Eu chego a sonhar acordada

Nós duas, lá no céu, onde agora é a sua morada

Bem juntinhas, de mãos dadas

Seguindo firmes numa longa estrada

Nesse dia esperado

Pelo sol iluminado

Caminhando a teu lado

Agarrada a tua mão

Falarei de mim, dos meus irmãos

De teus netos, como eles estão

Choraremos de emoção

Sorriremos de alegria

Ah! Esse nosso coração!

Jamais esqueceremos esse dia

Contarei sobre os meus planos

Das vitórias, dos desenganos

Sobre tudo o que já escrevi

E a ti eu dediquei

Quão feliz eu ficarei

Quando no verde de teus olhos eu mergulhar?

E neles reconhecer os meus

Que de tão parecidos com os teus

Eu vivo no espelho a admirar

Que alegria eu sentirei

Quando em teus braços me envolver

Teu aconchego me aquecer

E um sonoro eu te amo, te ouvir dizer

Com o teu amor, com teu carinho

Eu esqueço rapidinho, que no mundo existe dor

Meu amor, minha vida, minha flor

Matarei minha saudade

Te cobrirei de beijos

Sentirei teu cheiro

Cheirinho de mãe. Humm! Como não amar?

Que lindo ele será

Esse nosso reencontro

Em algum dia, em algum ponto

Esse encontro se dará

Deus está a preparar

Um lugar lindo e tranquilo

Pra gente se abraçar

Mãe e filha abraçadas

Ninguém há de separar

É, mas por enquanto eu fico por aqui

Escrevendo com cuidado

Esses versos delicados

Que eu fiz só pra ti

São teus, pode levar

Espera! Deixa eu assinar

Receba esses versinhos, minha mãezinha

Com todo carinho, de tua filhinha!