Isaac Bugarim

Isaac Bugarim

Maceió, AL (1985)

BIO

Poeta, romancista, servidor público, musicólogo e baterista. Formado em Direito pela Ufal (2007-2011), trabalha como servidor do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. Publicou seus textos em blogs e antologias literárias. Participou do Cliqueleia, manifestação poética e fotográfica realizada em Maceió, em 2013.

ESCRITOS

POESIA

Agrafia (2014); 

Maiúsculas abertas (2020). 

ROMANCE

Baile catingoso (2017); 

Marruá (2024).

Cegueira (do Agrafia)

Com o que sonha um cego de nascença?

Ou não sonha ele, eivado de sentido?

Pode um esto gravoso que evola

ter sido por ele no sonho esculpido?

Podem um queixo, a maçã de um rosto

serem no sonho tão bem desenhados?

Ou o cego não sabe, no sonho que tem,

incutir nas coisas os significados?

É a visão, assim, tão imprescindível?

É, verdadeiramente, preciso o olhar

para que o mundo seja-nos tão terrível?

Ou os olhos podem – sim! – pintar

tudo o que nos for possível?

É-me a visão somente ocular? 

seu nome em caixa alta, mais negro do que um lírio (do maiúsculas abertas)

se te dou adeus

é porque hão de ser muitos 

os meus regressos, 

ainda que surpresos 

ou com demora. 

me verás de volta à casa 

para dizer repetidas vezes ‘até logo’,

pois o modo como me feres 

com o rosto de quem clama ‘fica’ 

é para mim uma graça.

sinto meu coração saltar como a dizer 

– sim, fico,

e todo o meu coração 

saltará todo o dia

nesta repetência 

de ficar, 

retornar 

a ti. 

volto como soldado sob o grito de ‘volver!’, 

um sangue 

tornando às válvulas cardíacas pelo alimento, 

um lázaro

que à vida corre.

volto, sobretudo, por ti

e pelos gatos, que devem, como no princípio,

lamber as minhas mãos, como lambiam

a torta deixada sobre a mesa. 

os gatos, por exemplo, não se despedem, 

não deve existir palavra no vocabulário 

dos felinos que sirva para qualquer ato

não-felino, 

que seja outra coisa 

que não o bucólico receio de ser deixado para trás,

como são deixadas a infância, 

as estações. 

mas é possível rir-se da despedida, 

como ri-se o adulto

duma travessura de criança, a quem

ainda não foi esclarecido 

o significado da palavra embora,

já que se repete

a palavra embora 

inúmeras vezes

para que entendam

que ir embora

não significa irmos juntos, irmos todos.

e aqui está a bifurcação que separou 

os indivíduos dos outros bichos, 

os bichos não dão adeus aos outros bichos,

a não ser na morte,

não conhecem a ausência da morte 

a não ser na morte, 

os bichos não se abraçam 

para memorizar o focinho

que não voltará mais como focinho,

mas como um cheiro, apenas. 

o abraço está na despedida

como a cor está na fruta, 

a bala está na boca,

o ermo está no ermo. 

mas o retorno

nem sempre estará na despedida

como a praia

nem sempre está no búzio.