Giovanna Lunetta

Giovanna Lunetta

Arapiraca, AL (2000)

BIO

Escritora, poeta e advogada. Moderadora do sarau Música e poesia, no Clubhouse, em tempos de pandemia, ambiente virtual de circulação de diversos artistas no mundo. Contemplada em primeiro lugar no Prêmio Literário Ladislau Netto (2023), do Edital da Lei Paulo Gustavo em Alagoas, com seu primeiro livro, O sol vem depois. Premiada com o Troféu Selma Bandeira, em 2024, na categoria literária, como personalidade alagoana. Coautora e organizadora do livro Inéditas (2022), poemas e histórias de mulheres, pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

ESCRITOS

POESIA

Inéditas: poemas e histórias de

mulheres (2022); 

O sol vem depois (2023).

TEXTO “é individual aquilo que nos reforma’’

é individual aquilo que nos reforma 

aqueles eventos da vida que nos repartem em antes e depois 

não se prevê o beijo que não cairá no esquecimento nunca

tampouco se pode adivinhar qual será o ser humano exclusivamente capaz de atravessar os pensamentos de um aluno a ponto de mudar seus movimentos pelo resto da vida

acho que o ser humano nunca sabe que será ele

nem o aluno talvez tenha a dimensão do evento que o divide em dois 

não é preciso muito para concluir que uma mesma palavra pesa diferente aos ouvidos de uns e outros

há quem duvide até de comprovações científicas e conteste o inquestionável 

o que faz alguém mudar a certeza que tem?

como a ternura vira qualquer coisa que não seja delicada à pele?

quanto mais amor existe, acho que maiores as chances de chegar a um e outro

e a gente fica pensando que precisa atravessar o mundo para ter força o bastante de mudar qualquer coisa que seja

mas, às vezes, qualquer coisa que seja é alguém que te recebe e se fraciona 

e que nunca mais vai ser quem era antes disso 

às vezes, qualquer coisa que seja é uma criança que se determina a não ser rude 

porque experimentou a gentileza de um amigo

é individual aquilo que nos reforma 

a gente, todo mundo, fica sem saber o que será capaz de nos repartir 

será que vai ser o encontro de mais tarde?

será que vai ser o livro que eu ganhei da minha tia ano passado?

será que vai ser esse cara chato que veio falar o que não me interessa?

não se prevê esse tipo de coisa 

acho que o ser humano nunca sabe que será ele

que ali ele tem a chance de mudar pelo resto da vida 

que ali ele vai se dar conta, exatamente, da pessoa que ele não quer se tornar 

não se prevê esse tipo de coisa 

há que se ter atenção 

há que se experimentar a gentileza de um amigo

há que ser gentil em dobro para a experiência de um outro

há, inclusive, que se contestar o inquestionável 

porque, afinal de contas, o que faz alguém mudar a certeza que tem?

é individual aquilo que nos reforma

TRECHO de “fartura de amor’’

“os primeiros poemas que escrevi cheiravam a ferro e rastejavam o corpo no chão

porque juravam que era a única maneira de respeitar as mulheres negras que eu li 

até eu descobrir que eu era uma mulher negra que queria falar de amor 

eu queria falar dos sambas que meu pai me mostrou quando eu era criança

eu queria falar da coisa linda que era cada mulher que sorria para mim sem me conhecer

eu queria que aquela dor ficasse cada vez mais longe do peito da gente 

até mesmo quando não desse e o mundo fosse contra a nossa cura

descobri que uma das maneiras é reconhecer que esse peito pede por fartura de amor

me convenci de que respeitar as mulheres negras que abriram esses caminhos

era fazer o esforço de abrir os próximos assistindo às mulheres negras tecendo

vidas deliciosas para elas mesmas e seus amores

era tocar a ponta dos meus próprios dedos e me dizer

com toda a gentileza do mundo

você pode escrever o que quiser.

o amor também é para você.”